CARTA ENCÍCLICA
LAUDATO SI’
DO SANTO PADRE
FRANCISCO
SOBRE O CUIDADO DA CASA COMUM
LAUDATO SI’
DO SANTO PADRE
FRANCISCO
SOBRE O CUIDADO DA CASA COMUM
1.
«LAUDATO SI’, mi’ Signore – Louvado sejas, meu Senhor», cantava São
Francisco de Assis. Neste gracioso cântico, recordava-nos que a nossa casa
comum se pode comparar ora a uma irmã, com quem partilhamos a existência, ora a
uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braços: «Louvado sejas, meu Senhor, pela
nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos
com flores coloridas e verduras».[1]
2.
Esta irmã clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável
e do abuso dos bens que Deus nela colocou. Crescemos a pensar que éramos seus
proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la. A violência, que está no
coração humano ferido pelo pecado, vislumbra-se nos sintomas de doença que
notamos no solo, na água, no ar e nos seres vivos. Por isso, entre os pobres
mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada,
que «geme e sofre as dores do parto» (Rm 8, 22). Esquecemo-nos de
que nós mesmos somos terra (cf. Gn 2, 7). O nosso corpo é
constituído pelos elementos do planeta; o seu ar permite-nos respirar, e a sua
água vivifica-nos e restaura-nos.
Nada
deste mundo nos é indiferente
3.
Mais de cinquenta anos atrás, quando o mundo estava oscilando sobre o fio duma
crise nuclear, o Santo Papa João XXIII
escreveu uma encíclica na qual não se limitava a rejeitar a guerra, mas quis
transmitir uma proposta de paz. Dirigiu a sua mensagem Pacem in terris a todo o mundo católico, mas
acrescentava: e a todas as pessoas de boa vontade. Agora, à vista da
deterioração global do ambiente, quero dirigir-me a cada pessoa que habita
neste planeta. Na minha exortação Evangelii gaudium, escrevi aos membros da Igreja, a fim
de os mobilizar para um processo de reforma missionária ainda pendente. Nesta
encíclica, pretendo especialmente entrar em diálogo com todos acerca da nossa
casa comum.
4.
Oito anos depois da Pacem in terris, em 1971, o Beato Papa Paulo VI referiu-se
à problemática ecológica, apresentando-a como uma crise que é «consequência
dramática» da actividade descontrolada do ser humano: «Por motivo de uma
exploração inconsiderada da natureza, [o ser humano] começa a correr o risco de
a destruir e de vir a ser, também ele, vítima dessa degradação».[2] E,
dirigindo-se à FAO, falou da possibilidade duma «catástrofe ecológica sob o
efeito da explosão da civilização industrial», sublinhando a «necessidade
urgente duma mudança radical no comportamento da humanidade», porque «os
progressos científicos mais extraordinários, as invenções técnicas mais
assombrosas, o desenvolvimento económico mais prodigioso, se não estiverem unidos
a um progresso social e moral, voltam-se necessariamente contra o homem».[3]
5.
São João Paulo II debruçou-se, com interesse
sempre maior, sobre este tema. Na sua primeira encíclica, advertiu que o ser
humano parece «não dar-se conta de outros significados do seu ambiente natural,
para além daqueles que servem somente para os fins de um uso ou consumo
imediatos».[4] Mais
tarde, convidou a uma conversão ecológica global.[5] Entretanto
fazia notar o pouco empenho que se põe em «salvaguardar as condições morais de
uma autêntica ecologia humana».[6] A
destruição do ambiente humano é um facto muito grave, porque, por um lado, Deus
confiou o mundo ao ser humano e, por outro, a própria vida humana é um dom que
deve ser protegido de várias formas de degradação. Toda a pretensão de cuidar e
melhorar o mundo requer mudanças profundas «nos estilos de vida, nos modelos de
produção e de consumo, nas estruturas consolidadas de poder, que hoje regem as
sociedades».[7] O
progresso humano autêntico possui um carácter moral e pressupõe o pleno
respeito pela pessoa humana, mas deve prestar atenção também ao mundo natural e
«ter em conta a natureza de cada ser e as ligações mútuas entre todos, num
sistema ordenado».[8] Assim, a
capacidade do ser humano transformar a realidade deve desenvolver-se com base
na doação originária das coisas por parte de Deus.[9]
6.
O meu predecessor, Bento XVI, renovou o convite a «eliminar as
causas estruturais das disfunções da economia mundial e corrigir os modelos de
crescimento que parecem incapazes de garantir o respeito do meio ambiente».[10] Lembrou
que o mundo não pode ser analisado concentrando-se apenas sobre um dos seus
aspectos, porque «o livro da natureza é uno e indivisível», incluindo, entre
outras coisas, o ambiente, a vida, a sexualidade, a família, as relações
sociais. É que «a degradação da natureza está estreitamente ligada à cultura
que molda a convivência humana».[11] O
Papa Bento XVI propôs-nos reconhecer que o
ambiente natural está cheio de chagas causadas pelo nosso comportamento irresponsável;
o próprio ambiente social tem as suas chagas. Mas, fundamentalmente, todas elas
se ficam a dever ao mesmo mal, isto é, à ideia de que não existem verdades
indiscutíveis a guiar a nossa vida, pelo que a liberdade humana não tem
limites. Esquece-se que «o homem não é apenas uma liberdade que se cria por si
própria. O homem não se cria a si mesmo. Ele é espírito e vontade, mas é também
natureza».[12]Com
paterna solicitude, convidou-nos a reconhecer que a criação resulta
comprometida «onde nós mesmos somos a última instância, onde o conjunto é
simplesmente nossa propriedade e onde o consumimos somente para nós mesmos. E o
desperdício da criação começa onde já não reconhecemos qualquer instância acima
de nós, mas vemo-nos unicamente a nós mesmos».[13]
Unidos
por uma preocupação comum
7.
Estas contribuições dos Papas recolhem a reflexão de inúmeros cientistas,
filósofos, teólogos e organizações sociais que enriqueceram o pensamento da
Igreja sobre estas questões. Mas não podemos ignorar que, também fora da Igreja
Católica, noutras Igrejas e Comunidades cristãs – bem como noutras religiões –
se tem desenvolvido uma profunda preocupação e uma reflexão valiosa sobre estes
temas que a todos nos estão a peito. Apenas para dar um exemplo particularmente
significativo, quero retomar brevemente parte da contribuição do amado
Patriarca Ecuménico Bartolomeu, com quem partilhamos a esperança da plena
comunhão eclesial.
8.
O Patriarca Bartolomeu tem-se referido particularmente à necessidade de cada um
se arrepender do próprio modo de maltratar o planeta, porque «todos, na medida
em que causamos pequenos danos ecológicos», somos chamados a reconhecer «a
nossa contribuição – pequena ou grande – para a desfiguração e destruição do
ambiente».[14] Sobre
este ponto, ele pronunciou-se repetidamente, de maneira firme e encorajadora,
convidando-nos a reconhecer os pecados contra a criação: «Quando os seres
humanos destroem a biodiversidade na criação de Deus; quando os seres humanos
comprometem a integridade da terra e contribuem para a mudança climática,
desnudando a terra das suas florestas naturais ou destruindo as suas zonas
húmidas; quando os seres humanos contaminam as águas, o solo, o ar... tudo isso
é pecado».[15] Porque
«um crime contra a natureza é um crime contra nós mesmos e um pecado contra
Deus».[16]
9.
Ao mesmo tempo Bartolomeu chamou a atenção para as raízes éticas e espirituais
dos problemas ambientais, que nos convidam a encontrar soluções não só na
técnica mas também numa mudança do ser humano; caso contrário, estaríamos a
enfrentar apenas os sintomas. Propôs-nos passar do consumo ao sacrifício, da
avidez à generosidade, do desperdício à capacidade de partilha, numa ascese que
«significa aprender a dar, e não simplesmente renunciar. É um modo de amar, de
passar pouco a pouco do que eu quero àquilo de que o mundo de Deus precisa. É
libertação do medo, da avidez, da dependência».[17] Além
disso nós, cristãos, somos chamados a «aceitar o mundo como sacramento de
comunhão, como forma de partilhar com Deus e com o próximo numa escala global.
É nossa humilde convicção que o divino e o humano se encontram no menor detalhe
da túnica inconsútil da criação de Deus, mesmo no último grão de poeira do
nosso planeta».[18]
São
Francisco de Assis
10.
Não quero prosseguir esta encíclica sem invocar um modelo belo e motivador.
Tomei o seu nome por guia e inspiração, no momento da minha eleição para Bispo
de Roma. Acho que Francisco é o exemplo por excelência do cuidado pelo que é
frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade. É o
santo padroeiro de todos os que estudam e trabalham no campo da ecologia, amado
também por muitos que não são cristãos. Manifestou uma atenção particular pela
criação de Deus e pelos mais pobres e abandonados. Amava e era amado pela sua
alegria, a sua dedicação generosa, o seu coração universal. Era um místico e um
peregrino que vivia com simplicidade e numa maravilhosa harmonia com Deus, com
os outros, com a natureza e consigo mesmo. Nele se nota até que ponto são inseparáveis
a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na
sociedade e a paz interior.
11.
O seu testemunho mostra-nos também que uma ecologia integral requer abertura
para categorias que transcendem a linguagem das ciências exactas ou da biologia
e nos põem em contacto com a essência do ser humano. Tal como acontece a uma
pessoa quando se enamora por outra, a reacção de Francisco, sempre que olhava o
sol, a lua ou os minúsculos animais, era cantar, envolvendo no seu louvor todas
as outras criaturas. Entrava em comunicação com toda a criação, chegando mesmo
a pregar às flores «convidando-as a louvar o Senhor, como se gozassem do dom da
razão».[19] A
sua reacção ultrapassava de longe uma mera avaliação intelectual ou um cálculo
económico, porque, para ele, qualquer criatura era uma irmã, unida a ele por
laços de carinho. Por isso, sentia-se chamado a cuidar de tudo o que existe.
São Boaventura, seu discípulo, contava que ele, «enchendo-se da maior ternura
ao considerar a origem comum de todas as coisas, dava a todas as criaturas –
por mais desprezíveis que parecessem – o doce nome de irmãos e irmãs».[20] Esta
convicção não pode ser desvalorizada como romantismo irracional, pois influi
nas opções que determinam o nosso comportamento. Se nos aproximarmos da
natureza e do meio ambiente sem esta abertura para a admiração e o encanto, se
deixarmos de falar a língua da fraternidade e da beleza na nossa relação com o
mundo, então as nossas atitudes serão as do dominador, do consumidor ou de um
mero explorador dos recursos naturais, incapaz de pôr um limite aos seus
interesses imediatos. Pelo contrário, se nos sentirmos intimamente unidos a
tudo o que existe, então brotarão de modo espontâneo a sobriedade e a
solicitude. A pobreza e a austeridade de São Francisco não eram simplesmente um
ascetismo exterior, mas algo de mais radical: uma renúncia a fazer da realidade
um mero objecto de uso e domínio.
12.
Por outro lado, São Francisco, fiel à Sagrada Escritura, propõe-nos reconhecer
a natureza como um livro esplêndido onde Deus nos fala e transmite algo da sua
beleza e bondade: «Na grandeza e na beleza das criaturas, contempla-se, por
analogia, o seu Criador» (Sab 13, 5) e «o que é invisível n’Ele – o
seu eterno poder e divindade – tornou-se visível à inteligência, desde a
criação do mundo, nas suas obras» (Rm 1, 20). Por isso, Francisco
pedia que, no convento, se deixasse sempre uma parte do horto por cultivar para
aí crescerem as ervas silvestres, a fim de que, quem as admirasse, pudesse
elevar o seu pensamento a Deus, autor de tanta beleza.[21] O
mundo é algo mais do que um problema a resolver; é um mistério gozoso que
contemplamos na alegria e no louvor.
O
meu apelo
13.
O urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir
toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral,
pois sabemos que as coisas podem mudar. O Criador não nos abandona, nunca recua
no seu projecto de amor, nem Se arrepende de nos ter criado. A humanidade
possui ainda a capacidade de colaborar na construção da nossa casa comum.
Desejo agradecer, encorajar e manifestar apreço a quantos, nos mais variados
sectores da actividade humana, estão a trabalhar para garantir a protecção da
casa que partilhamos. Uma especial gratidão é devida àqueles que lutam, com
vigor, por resolver as dramáticas consequências da degradação ambiental na vida
dos mais pobres do mundo. Os jovens exigem de nós uma mudança; interrogam-se
como se pode pretender construir um futuro melhor, sem pensar na crise do meio
ambiente e nos sofrimentos dos excluídos.
14.
Lanço um convite urgente a renovar o diálogo sobre a maneira como estamos a
construir o futuro do planeta. Precisamos de um debate que nos una a todos,
porque o desafio ambiental, que vivemos, e as suas raízes humanas dizem
respeito e têm impacto sobre todos nós. O movimento ecológico mundial já
percorreu um longo e rico caminho, tendo gerado numerosas agregações de
cidadãos que ajudaram na consciencialização. Infelizmente, muitos esforços na
busca de soluções concretas para a crise ambiental acabam, com frequência,
frustrados não só pela recusa dos poderosos, mas também pelo desinteresse dos
outros. As atitudes que dificultam os caminhos de solução, mesmo entre os
crentes, vão da negação do problema à indiferença, à resignação acomodada ou à
confiança cega nas soluções técnicas. Precisamos de nova solidariedade
universal. Como disseram os bispos da África do Sul, «são necessários os
talentos e o envolvimento de todos para reparar o dano causado
pelos humanos sobre a criação de Deus».[22] Todos
podemos colaborar, como instrumentos de Deus, no cuidado da criação, cada um a
partir da sua cultura, experiência, iniciativas e capacidades.
15.
Espero que esta carta encíclica, que se insere no magistério social da Igreja,
nos ajude a reconhecer a grandeza, a urgência e a beleza do desafio que temos
pela frente. Em primeiro lugar, farei uma breve resenha dos vários aspectos da
actual crise ecológica, com o objectivo de assumir os melhores frutos da
pesquisa científica actualmente disponível, deixar-se tocar por ela em
profundidade e dar uma base concreta ao percurso ético e espiritual seguido. A
partir desta panorâmica, retomarei algumas argumentações que derivam da
tradição judaico-cristã, a fim de dar maior coerência ao nosso compromisso com
o meio ambiente. Depois procurarei chegar às raízes da situação actual, de modo
a individuar não apenas os seus sintomas, mas também as causas mais profundas.
Poderemos assim propor uma ecologia que, nas suas várias dimensões, integre o
lugar específico que o ser humano ocupa neste mundo e as suas relações com a
realidade que o rodeia. À luz desta reflexão, quereria dar mais um passo,
verificando algumas das grandes linhas de diálogo e de acção que envolvem seja
cada um de nós seja a política internacional. Finalmente, convencido – como
estou – de que toda a mudança tem necessidade de motivações e dum caminho
educativo, proporei algumas linhas de maturação humana inspiradas no tesouro da
experiência espiritual cristã.
16.
Embora cada capítulo tenha a sua temática própria e uma metodologia específica,
o sucessivo retoma por sua vez, a partir duma nova perspectiva, questões
importantes abordadas nos capítulos anteriores. Isto diz respeito especialmente
a alguns eixos que atravessam a encíclica inteira. Por exemplo: a relação
íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta, a convicção de que tudo está
estreitamente interligado no mundo, a crítica do novo paradigma e das formas de
poder que derivam da tecnologia, o convite a procurar outras maneiras de
entender a economia e o progresso, o valor próprio de cada criatura, o sentido
humano da ecologia, a necessidade de debates sinceros e honestos, a grave responsabilidade
da política internacional e local, a cultura do descarte e a proposta dum novo
estilo de vida. Estes temas nunca se dão por encerrados nem se abandonam, mas
são constantemente retomados e enriquecidos.
CAPÍTULO
I
O
QUE ESTÁ A ACONTECER À NOSSA CASA
17.
As reflexões teológicas ou filosóficas sobre a situação da humanidade e do
mundo podem soar como uma mensagem repetida e vazia, se não forem apresentadas
novamente a partir dum confronto com o contexto actual no que este tem de
inédito para a história da humanidade. Por isso, antes de reconhecer como a fé
traz novas motivações e exigências face ao mundo de que fazemos parte, proponho
que nos detenhamos brevemente a considerar o que está a acontecer à nossa casa
comum.
18.
A contínua aceleração das mudanças na humanidade e no planeta junta-se, hoje, à
intensificação dos ritmos de vida e trabalho, que alguns, em espanhol, designam
por «rapidación». Embora a mudança faça parte da dinâmica dos sistemas
complexos, a velocidade que hoje lhe impõem as acções humanas contrasta com a
lentidão natural da evolução biológica. A isto vem juntar-se o problema de que
os objectivos desta mudança rápida e constante não estão necessariamente
orientados para o bem comum e para um desenvolvimento humano sustentável e integral.
A mudança é algo desejável, mas torna-se preocupante quando se transforma em
deterioração do mundo e da qualidade de vida de grande parte da humanidade.
19.
Depois dum tempo de confiança irracional no progresso e nas capacidades
humanas, uma parte da sociedade está a entrar numa etapa de maior
consciencialização. Nota-se uma crescente sensibilidade relativamente ao meio
ambiente e ao cuidado da natureza, e cresce uma sincera e sentida preocupação
pelo que está a acontecer ao nosso planeta. Façamos uma resenha, certamente
incompleta, das questões que hoje nos causam inquietação e já não se podem
esconder debaixo do tapete. O objectivo não é recolher informações ou
satisfazer a nossa curiosidade, mas tomar dolorosa consciência, ousar
transformar em sofrimento pessoal aquilo que acontece ao mundo e, assim,
reconhecer a contribuição que cada um lhe pode dar.
1.
Poluição e mudanças climáticas
Poluição,
resíduos e cultura do descarte
20.
Existem formas de poluição que afectam diariamente as pessoas. A exposição aos
poluentes atmosféricos produz uma vasta gama de efeitos sobre a saúde,
particularmente dos mais pobres, e provocam milhões de mortes prematuras.
Adoecem, por exemplo, por causa da inalação de elevadas quantidades de fumo
produzido pelos combustíveis utilizados para cozinhar ou aquecer-se. A isto vem
juntar-se a poluição que afecta a todos, causada pelo transporte, pelos fumos
da indústria, pelas descargas de substâncias que contribuem para a acidificação
do solo e da água, pelos fertilizantes, insecticidas, fungicidas, pesticidas e
agro-tóxicos em geral. Na realidade a tecnologia, que, ligada à finança,
pretende ser a única solução dos problemas, é incapaz de ver o mistério das
múltiplas relações que existem entre as coisas e, por isso, às vezes resolve um
problema criando outros.
21.
Devemos considerar também a poluição produzida pelos resíduos, incluindo os
perigosos presentes em variados ambientes. Produzem-se anualmente centenas de
milhões de toneladas de resíduos, muitos deles não biodegradáveis: resíduos
domésticos e comerciais, detritos de demolições, resíduos clínicos,
electrónicos e industriais, resíduos altamente tóxicos e radioactivos. A terra,
nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo. Em
muitos lugares do planeta, os idosos recordam com saudade as paisagens de
outrora, que agora vêem submersas de lixo. Tanto os resíduos industriais como
os produtos químicos utilizados nas cidades e nos campos podem produzir um
efeito de bioacumulação nos organismos dos moradores nas áreas limítrofes, que
se verifica mesmo quando é baixo o nível de presença dum elemento tóxico num
lugar. Muitas vezes só se adoptam medidas quando já se produziram efeitos
irreversíveis na saúde das pessoas.
22.
Estes problemas estão intimamente ligados à cultura do descarte, que afecta
tanto os seres humanos excluídos como as coisas que se convertem rapidamente em
lixo. Note-se, por exemplo, como a maior parte do papel produzido se desperdiça
sem ser reciclado. Custa-nos a reconhecer que o funcionamento dos ecossistemas
naturais é exemplar: as plantas sintetizam substâncias nutritivas que alimentam
os herbívoros; estes, por sua vez, alimentam os carnívoros que fornecem
significativas quantidades de resíduos orgânicos, que dão origem a uma nova geração
de vegetais. Ao contrário, o sistema industrial, no final do ciclo de produção
e consumo, não desenvolveu a capacidade de absorver e reutilizar resíduos e
escórias. Ainda não se conseguiu adoptar um modelo circular de produção que
assegure recursos para todos e para as gerações futuras e que exige limitar, o
mais possível, o uso dos recursos não-renováveis, moderando o seu consumo,
maximizando a eficiência no seu aproveitamento, reutilizando e reciclando-os. A
resolução desta questão seria uma maneira de contrastar a cultura do descarte
que acaba por danificar o planeta inteiro, mas nota-se que os progressos neste
sentido são ainda muito escassos.
O
clima como bem comum
23.
O clima é um bem comum, um bem de todos e para todos. A nível global, é um sistema
complexo, que tem a ver com muitas condições essenciais para a vida humana. Há
um consenso científico muito consistente, indicando que estamos perante um
preocupante aquecimento do sistema climático. Nas últimas décadas, este
aquecimento foi acompanhado por uma elevação constante do nível do mar, sendo
difícil não o relacionar ainda com o aumento de acontecimentos meteorológicos
extremos, embora não se possa atribuir uma causa cientificamente determinada a
cada fenómeno particular. A humanidade é chamada a tomar consciência da
necessidade de mudanças de estilos de vida, de produção e de consumo, para
combater este aquecimento ou, pelo menos, as causas humanas que o produzem ou
acentuam. É verdade que há outros factores (tais como o vulcanismo, as variações
da órbita e do eixo terrestre, o ciclo solar), mas numerosos estudos
científicos indicam que a maior parte do aquecimento global das últimas décadas
é devida à alta concentração de gases com efeito de estufa (anidrido carbónico,
metano, óxido de azoto, e outros) emitidos sobretudo por causa da actividade
humana. A sua concentração na atmosfera impede que o calor dos raios solares
reflectidos pela terra se dilua no espaço. Isto é particularmente agravado pelo
modelo de desenvolvimento baseado no uso intensivo de combustíveis fósseis, que
está no centro do sistema energético mundial. E incidiu também a prática
crescente de mudar a utilização do solo, principalmente o desflorestamento para
finalidade agrícola.
24.
Por sua vez, o aquecimento influi sobre o ciclo do carbono. Cria um ciclo
vicioso que agrava ainda mais a situação e que incidirá sobre a disponibilidade
de recursos essenciais como a água potável, a energia e a produção agrícola das
áreas mais quentes e provocará a extinção de parte da biodiversidade do
planeta. O derretimento das calotas polares e dos glaciares a grande altitude
ameaça com uma libertação, de alto risco, de gás metano, e a decomposição da
matéria orgânica congelada poderia acentuar ainda mais a emissão de anidrido
carbónico. Entretanto a perda das florestas tropicais piora a situação, pois
estas ajudam a mitigar a mudança climática. A poluição produzida pelo anidrido
carbónico aumenta a acidez dos oceanos e compromete a cadeia alimentar marinha.
Se a tendência actual se mantiver, este século poderá ser testemunha de
mudanças climáticas inauditas e duma destruição sem precedentes dos
ecossistemas, com graves consequências para todos nós. Por exemplo, a subida do
nível do mar pode criar situações de extrema gravidade, se se considera que um
quarto da população mundial vive à beira-mar ou muito perto dele, e a maior
parte das megacidades estão situadas em áreas costeiras.
25.
As mudanças climáticas são um problema global com graves implicações
ambientais, sociais, económicas, distributivas e políticas, constituindo
actualmente um dos principais desafios para a humanidade. Provavelmente os
impactos mais sérios recairão, nas próximas décadas, sobre os países em vias de
desenvolvimento. Muitos pobres vivem em lugares particularmente afectados por
fenómenos relacionados com o aquecimento, e os seus meios de subsistência
dependem fortemente das reservas naturais e dos chamados serviços do
ecossistema como a agricultura, a pesca e os recursos florestais. Não possuem
outras disponibilidades económicas nem outros recursos que lhes permitam
adaptar-se aos impactos climáticos ou enfrentar situações catastróficas, e
gozam de reduzido acesso a serviços sociais e de protecção. Por exemplo, as
mudanças climáticas dão origem a migrações de animais e vegetais que nem sempre
conseguem adaptar-se; e isto, por sua vez, afecta os recursos produtivos dos
mais pobres, que são forçados também a emigrar com grande incerteza quanto ao
futuro da sua vida e dos seus filhos. É trágico o aumento de emigrantes em fuga
da miséria agravada pela degradação ambiental, que, não sendo reconhecidos como
refugiados nas convenções internacionais, carregam o peso da sua vida
abandonada sem qualquer tutela normativa. Infelizmente, verifica-se uma
indiferença geral perante estas tragédias, que estão acontecendo agora mesmo em
diferentes partes do mundo. A falta de reacções diante destes dramas dos nossos
irmãos e irmãs é um sinal da perda do sentido de responsabilidade pelos nossos
semelhantes, sobre o qual se funda toda a sociedade civil.
26.
Muitos daqueles que detêm mais recursos e poder económico ou político parecem
concentrar-se sobretudo em mascarar os problemas ou ocultar os seus sintomas,
procurando apenas reduzir alguns impactos negativos de mudanças climáticas. Mas
muitos sintomas indicam que tais efeitos poderão ser cada vez piores, se
continuarmos com os modelos actuais de produção e consumo. Por isso, tornou-se
urgente e imperioso o desenvolvimento de políticas capazes de fazer com que,
nos próximos anos, a emissão de anidrido carbónico e outros gases altamente
poluentes se reduza drasticamente, por exemplo, substituindo os combustíveis
fósseis e desenvolvendo fontes de energia renovável. No mundo, é exíguo o nível
de acesso a energias limpas e renováveis. Mas ainda é necessário desenvolver
adequadas tecnologias de acumulação. Entretanto, nalguns países, registaram-se
avanços que começam a ser significativos, embora estejam longe de atingir uma
proporção importante. Houve também alguns investimentos em modalidades de produção
e transporte que consomem menos energia exigindo menor quantidade de
matérias-primas, bem como em modalidades de construção ou restruturação de
edifícios para se melhorar a sua eficiência energética. Mas estas práticas
promissoras estão longe de se tornar omnipresentes.
2.
A questão da água
27.
Outros indicadores da situação actual têm a ver com o esgotamento dos recursos
naturais. É bem conhecida a impossibilidade de sustentar o nível actual de
consumo dos países mais desenvolvidos e dos sectores mais ricos da sociedade,
onde o hábito de desperdiçar e jogar fora atinge níveis inauditos. Já se
ultrapassaram certos limites máximos de exploração do planeta, sem termos
resolvido o problema da pobreza.
28.
A água potável e limpa constitui uma questão de primordial importância, porque
é indispensável para a vida humana e para sustentar os ecossistemas terrestres
e aquáticos. As fontes de água doce fornecem os sectores sanitários,
agro-pecuários e industriais. A disponibilidade de água manteve-se relativamente
constante durante muito tempo, mas agora, em muitos lugares, a procura excede a
oferta sustentável, com graves consequências a curto e longo prazo. Grandes
cidades, que dependem de importantes reservas hídricas, sofrem períodos de
carência do recurso, que, nos momentos críticos, nem sempre se administra com
uma gestão adequada e com imparcialidade. A pobreza da água pública verifica-se
especialmente na África, onde grandes sectores da população não têm acesso a
água potável segura, ou sofrem secas que tornam difícil a produção de alimento.
Nalguns países, há regiões com abundância de água, enquanto outras sofrem de
grave escassez.
29.
Um problema particularmente sério é o da qualidade da água disponível para os
pobres, que diariamente ceifa muitas vidas. Entre os pobres, são frequentes as
doenças relacionadas com a água, incluindo as causadas por microorganismos e
substâncias químicas. A diarreia e a cólera, devidas a serviços de higiene e
reservas de água inadequados, constituem um factor significativo de sofrimento
e mortalidade infantil. Em muitos lugares, os lençóis freáticos estão ameaçados
pela poluição produzida por algumas actividades extractivas, agrícolas e
industriais, sobretudo em países desprovidos de regulamentação e controles
suficientes. Não pensamos apenas nas descargas provenientes das fábricas; os
detergentes e produtos químicos que a população utiliza em muitas partes do
mundo continuam a ser derramados em rios, lagos e mares.
30.
Enquanto a qualidade da água disponível piora constantemente, em alguns lugares
cresce a tendência para se privatizar este recurso escasso, tornando-se uma
mercadoria sujeita às leis do mercado. Na realidade, o acesso à água
potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque
determina a sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição para o exercício
dos outros direitos humanos. Este mundo tem uma grave dívida social para
com os pobres que não têm acesso à água potável, porque isto é
negar-lhes o direito à vida radicado na sua dignidade inalienável. Esta
dívida é parcialmente saldada com maiores contribuições económicas para prover
de água limpa e saneamento as populações mais pobres. Entretanto nota-se um
desperdício de água não só nos países desenvolvidos, mas também naqueles em
vias de desenvolvimento que possuem grandes reservas. Isto mostra que o
problema da água é, em parte, uma questão educativa e cultural, porque não há
consciência da gravidade destes comportamentos num contexto de grande
desigualdade.
31.
Uma maior escassez de água provocará o aumento do custo dos alimentos e de
vários produtos que dependem do seu uso. Alguns estudos assinalaram o risco de
sofrer uma aguda escassez de água dentro de poucas décadas, se não forem
tomadas medidas urgentes. Os impactos ambientais poderiam afectar milhares de
milhões de pessoas, sendo previsível que o controle da água por grandes
empresas mundiais se transforme numa das principais fontes de conflitos deste
século.[23]
3.
Perda de biodiversidade
32.
Os recursos da terra estão a ser depredados também por causa de formas
imediatistas de entender a economia e a actividade comercial e produtiva. A
perda de florestas e bosques implica simultaneamente a perda de espécies que
poderiam constituir, no futuro, recursos extremamente importantes não só para a
alimentação mas também para a cura de doenças e vários serviços. As diferentes
espécies contêm genes que podem ser recursos-chave para resolver, no futuro,
alguma necessidade humana ou regular algum problema ambiental.
33.
Entretanto não basta pensar nas diferentes espécies apenas como eventuais
«recursos» exploráveis, esquecendo que possuem um valor em si mesmas.
Anualmente, desaparecem milhares de espécies vegetais e animais, que já não
poderemos conhecer, que os nossos filhos não poderão ver, perdidas para sempre.
A grande maioria delas extingue-se por razões que têm a ver com alguma
actividade humana. Por nossa causa, milhares de espécies já não darão glória a
Deus com a sua existência, nem poderão comunicar-nos a sua própria mensagem.
Não temos direito de o fazer.
34.
Possivelmente perturba-nos saber da extinção dum mamífero ou duma ave, pela sua
maior visibilidade; mas, para o bom funcionamento dos ecossistemas, também são
necessários os fungos, as algas, os vermes, os pequenos insectos, os répteis e
a variedade inumerável de microorganismos. Algumas espécies pouco numerosas,
que habitualmente nos passam despercebidas, desempenham uma função censória
fundamental para estabelecer o equilíbrio dum lugar. É verdade que o ser humano
deve intervir quando um geosistema cai em estado crítico, mas hoje o nível de
intervenção humana numa realidade tão complexa como a natureza é tal, que os
desastres constantes causados pelo ser humano provocam uma nova intervenção
dele de modo que a actividade humana torna-se omnipresente, com todos os riscos
que isto implica. Normalmente cria-se um círculo vicioso, no qual a intervenção
humana, para resolver uma dificuldade, muitas vezes ainda agrava mais a
situação. Por exemplo, muitos pássaros e insectos, que desaparecem por causa
dos agro-tóxicos criados pela tecnologia, são úteis para a própria agricultura,
e o seu desaparecimento deverá ser compensado por outra intervenção tecnológica
que possivelmente trará novos efeitos nocivos. São louváveis e, às vezes,
admiráveis os esforços de cientistas e técnicos que procuram dar solução aos
problemas criados pelo ser humano. Mas, contemplando o mundo, damo-nos conta de
que este nível de intervenção humana, muitas vezes ao serviço da finança e do
consumismo, faz com que esta terra onde vivemos se torne realmente menos rica e
bela, cada vez mais limitada e cinzenta, enquanto ao mesmo tempo o
desenvolvimento da tecnologia e das ofertas de consumo continua a avançar sem
limites. Assim, parece que nos iludimos de poder substituir uma beleza
insuprível e irrecuperável por outra criada por nós.
35.
Quando se analisa o impacto ambiental de qualquer iniciativa económica,
costuma-se olhar para os seus efeitos no solo, na água e no ar, mas nem sempre
se inclui um estudo cuidadoso do impacto na biodiversidade, como se a perda de
algumas espécies ou de grupos animais ou vegetais fosse algo de pouca
relevância. As estradas, os novos cultivos, as reservas, as barragens e outras
construções vão tomando posse dos habitats e, por vezes, fragmentam-nos de tal
maneira que as populações de animais já não podem migrar nem mover-se
livremente, pelo que algumas espécies correm o risco de extinção. Existem
alternativas que, pelo menos, mitigam o impacto destas obras, como a criação de
corredores biológicos, mas são poucos os países em que se adverte este cuidado
e prevenção. Quando se explora comercialmente algumas espécies, nem sempre se
estuda a sua modalidade de crescimento para evitar a sua diminuição excessiva e
consequente desequilíbrio do ecossistema.
36.
O cuidado dos ecossistemas requer uma perspectiva que se estenda para além do
imediato, porque, quando se busca apenas um ganho económico rápido e fácil, já
ninguém se importa realmente com a sua preservação. Mas o custo dos danos
provocados pela negligência egoísta é muitíssimo maior do que o benefício
económico que se possa obter. No caso da perda ou dano grave dalgumas espécies,
fala-se de valores que excedem todo e qualquer cálculo. Por isso, podemos ser
testemunhas mudas de gravíssimas desigualdades, quando se pretende obter
benefícios significativos, fazendo pagar ao resto da humanidade, presente e
futura, os altíssimos custos da degradação ambiental.
37.
Alguns países fizeram progressos na conservação eficaz de certos lugares e
áreas – na terra e nos oceanos –, proibindo aí toda a intervenção humana que
possa modificar a sua fisionomia ou alterar a sua constituição original. No
cuidado da biodiversidade, os especialistas insistem na necessidade de prestar
uma especial atenção às áreas mais ricas em variedade de espécies, em espécies
endémicas, raras ou com menor grau de efectiva protecção. Há lugares que
requerem um cuidado particular pela sua enorme importância para o ecossistema
mundial, ou que constituem significativas reservas de água assegurando assim
outras formas de vida.
38.
Mencionemos, por exemplo, os pulmões do planeta repletos de biodiversidade que
são a Amazónia e a bacia fluvial do Congo, ou os grandes lençóis freáticos e os
glaciares. A importância destes lugares para o conjunto do planeta e para o
futuro da humanidade não se pode ignorar. Os ecossistemas das florestas
tropicais possuem uma biodiversidade de enorme complexidade, quase impossível
de conhecer completamente, mas quando estas florestas são queimadas ou
derrubadas para desenvolver cultivos, em poucos anos perdem-se inúmeras
espécies, ou tais áreas transformam-se em áridos desertos. Todavia, ao falar
sobre estes lugares, impõe-se um delicado equilíbrio, porque não é possível
ignorar também os enormes interesses económicos internacionais que, a pretexto
de cuidar deles, podem atentar contra as soberanias nacionais. Com efeito, há
«propostas de internacionalização da Amazónia que só servem aos interesses
económicos das corporações internacionais».[24] É
louvável a tarefa de organismos internacionais e organizações da sociedade
civil que sensibilizam as populações e colaboram de forma crítica, inclusive
utilizando legítimos mecanismos de pressão, para que cada governo cumpra o
dever próprio e não-delegável de preservar o meio ambiente e os recursos
naturais do seu país, sem se vender a espúrios interesses locais ou
internacionais.
39.
Habitualmente também não se faz objecto de adequada análise a substituição da
flora silvestre por áreas florestais com árvores, que geralmente são
monoculturas. É que pode afectar gravemente uma biodiversidade que não é
albergada pelas novas espécies que se implantam. Também as zonas húmidas, que
são transformadas em terrenos agrícolas, perdem a enorme biodiversidade que
abrigavam. É preocupante, nalgumas áreas costeiras, o desaparecimento dos
ecossistemas constituídos por manguezais.
40.
Os oceanos contêm não só a maior parte da água do planeta, mas também a maior
parte da vasta variedade dos seres vivos, muitos deles ainda desconhecidos para
nós e ameaçados por diversas causas. Além disso, a vida nos rios, lagos, mares
e oceanos, que nutre grande parte da população mundial, é afectada pela
extracção descontrolada dos recursos ictíicos, que provoca drásticas diminuições
dalgumas espécies. E no entanto continuam a desenvolver-se modalidades
selectivas de pesca, que descartam grande parte das espécies apanhadas.
Particularmente ameaçados estão organismos marinhos que não temos em
consideração, como certas formas de plâncton que constituem um componente muito
importante da cadeia alimentar marinha e de que dependem, em última instância,
espécies que se utilizam para a alimentação humana.
41.
Passando aos mares tropicais e subtropicais, encontramos os recifes de coral,
que equivalem às grandes florestas da terra firme, porque abrigam cerca de um
milhão de espécies, incluindo peixes, caranguejos, moluscos, esponjas, algas e
outras. Hoje, muitos dos recifes de coral no mundo já são estéreis ou
encontram-se num estado contínuo de declínio: «Quem transformou o maravilhoso
mundo marinho em cemitérios subaquáticos despojados de vida e de cor?»[25] Este
fenómeno deve-se, em grande parte, à poluição que chega ao mar resultante do
desflorestamento, das monoculturas agrícolas, das descargas industriais e de
métodos de pesca destrutivos, nomeadamente os que utilizam cianeto e dinamite.
É agravado pelo aumento da temperatura dos oceanos. Tudo isso nos ajuda a
compreender como qualquer acção sobre a natureza pode ter consequências que não
advertimos à primeira vista e como certas formas de exploração de recursos se
obtêm à custa duma degradação que acaba por chegar até ao fundo dos oceanos.
42.
É preciso investir muito mais na pesquisa para se entender melhor o
comportamento dos ecossistemas e analisar adequadamente as diferentes variáveis
de impacto de qualquer modificação importante do meio ambiente. Visto que todas
as criaturas estão interligadas, deve ser reconhecido com carinho e admiração o
valor de cada uma, e todos nós, seres criados, precisamos uns dos outros. Cada
território detém uma parte de responsabilidade no cuidado desta família, pelo
que deve fazer um inventário cuidadoso das espécies que alberga a fim de
desenvolver programas e estratégias de protecção, cuidando com particular
solicitude das espécies em vias de extinção.
4.
Deterioração da qualidade de vida humana e degradação social
43.
Tendo em conta que o ser humano também é uma criatura deste mundo, que tem
direito a viver e ser feliz e, além disso, possui uma dignidade especial, não
podemos deixar de considerar os efeitos da degradação ambiental, do modelo
actual de desenvolvimento e da cultura do descarte sobre a vida das pessoas.
44.
Nota-se hoje, por exemplo, o crescimento desmedido e descontrolado de muitas
cidades que se tornaram pouco saudáveis para viver, devido não só à poluição
proveniente de emissões tóxicas mas também ao caos urbano, aos problemas de
transporte e à poluição visiva e acústica. Muitas cidades são grandes
estruturas que não funcionam, gastando energia e água em excesso. Há bairros
que, embora construídos recentemente, apresentam-se congestionados e
desordenados, sem espaços verdes suficientes. Não é conveniente para os
habitantes deste planeta viver cada vez mais submersos de cimento, asfalto,
vidro e metais, privados do contacto físico com a natureza.
45.
Nalguns lugares, rurais e urbanos, a privatização dos espaços tornou difícil o
acesso dos cidadãos a áreas de especial beleza; noutros, criaram-se áreas
residenciais «ecológicas» postas à disposição só de poucos, procurando-se
evitar que outros entrem a perturbar uma tranquilidade artificial. Muitas vezes
encontra-se uma cidade bela e cheia de espaços verdes e bem cuidados nalgumas
áreas «seguras», mas não em áreas menos visíveis, onde vivem os descartados da
sociedade.
46.
Entre os componentes sociais da mudança global, incluem-se os efeitos laborais
dalgumas inovações tecnológicas, a exclusão social, a desigualdade no
fornecimento e consumo da energia e doutros serviços, a fragmentação social, o
aumento da violência e o aparecimento de novas formas de agressividade social,
o narcotráfico e o consumo crescente de drogas entre os mais jovens, a perda de
identidade. São alguns sinais, entre outros, que mostram como o crescimento nos
últimos dois séculos não significou, em todos os seus aspectos, um verdadeiro
progresso integral e uma melhoria da qualidade de vida. Alguns destes sinais
são ao mesmo tempo sintomas duma verdadeira degradação social, duma silenciosa
ruptura dos vínculos de integração e comunhão social.
47.
A isto vêm juntar-se as dinâmicas dos mass-media e do mundo digital, que,
quando se tornam omnipresentes, não favorecem o desenvolvimento duma capacidade
de viver com sabedoria, pensar em profundidade, amar com generosidade. Neste
contexto, os grandes sábios do passado correriam o risco de ver sufocada a sua
sabedoria no meio do ruído dispersivo da informação. Isto exige de nós um
esforço para que esses meios se traduzam num novo desenvolvimento cultural da
humanidade, e não numa deterioração da sua riqueza mais profunda. A verdadeira
sabedoria, fruto da reflexão, do diálogo e do encontro generoso entre as
pessoas, não se adquire com uma mera acumulação de dados, que, numa espécie de
poluição mental, acabam por saturar e confundir. Ao mesmo tempo tendem a
substituir as relações reais com os outros, com todos os desafios que implicam,
por um tipo de comunicação mediada pela internet. Isto permite seleccionar ou
eliminar a nosso arbítrio as relações e, deste modo, frequentemente gera-se um
novo tipo de emoções artificiais, que têm a ver mais com dispositivos e
monitores do que com as pessoas e a natureza. Os meios actuais permitem-nos
comunicar e partilhar conhecimentos e afectos. Mas, às vezes, também nos
impedem de tomar contacto directo com a angústia, a trepidação, a alegria do
outro e com a complexidade da sua experiência pessoal. Por isso, não deveria
surpreender-nos o facto de, a par da oferta sufocante destes produtos, ir
crescendo uma profunda e melancólica insatisfação nas relações interpessoais ou
um
nocivo
isolamento.
5.
Desigualdade planetária
48.
O ambiente humano e o ambiente natural degradam-se em conjunto; e não podemos
enfrentar adequadamente a degradação ambiental, se não prestarmos atenção às
causas que têm a ver com a degradação humana e social. De facto, a deterioração
do meio ambiente e a da sociedade afectam de modo especial os mais frágeis do
planeta: «Tanto a experiência comum da vida quotidiana como a investigação
científica demonstram que os efeitos mais graves de todas as agressões
ambientais recaem sobre as pessoas mais pobres».[26] Por
exemplo, o esgotamento das reservas ictíicas prejudica especialmente as pessoas
que vivem da pesca artesanal e não possuem qualquer maneira de a substituir, a
poluição da água afecta particularmente os mais pobres que não têm
possibilidades de comprar água engarrafada, e a elevação do nível do mar afecta
principalmente as populações costeiras mais pobres que não têm para onde se
transferir. O impacto dos desequilíbrios actuais manifesta-se também na morte
prematura de muitos pobres, nos conflitos gerados pela falta de recursos e em
muitos outros problemas que não têm espaço suficiente nas agendas mundiais.[27]
49.
Gostaria de assinalar que muitas vezes falta uma consciência clara dos
problemas que afectam particularmente os excluídos. Estes são a maioria do
planeta, milhares de milhões de pessoas. Hoje são mencionados nos debates
políticos e económicos internacionais, mas com frequência parece que os seus
problemas se coloquem como um apêndice, como uma questão que se acrescenta
quase por obrigação ou perifericamente, quando não são considerados meros danos
colaterais. Com efeito, na hora da implementação concreta, permanecem
frequentemente no último lugar. Isto deve-se, em parte, ao facto de que muitos
profissionais, formadores de opinião, meios de comunicação e centros de poder
estão localizados longe deles, em áreas urbanas isoladas, sem ter contacto
directo com os seus problemas. Vivem e reflectem a partir da comodidade dum
desenvolvimento e duma qualidade de vida que não está ao alcance da maioria da
população mundial. Esta falta de contacto físico e de encontro, às vezes
favorecida pela fragmentação das nossas cidades, ajuda a cauterizar a
consciência e a ignorar parte da realidade em análises tendenciosas. Isto, às
vezes, coexiste com um discurso «verde». Mas, hoje, não podemos deixar de
reconhecer queuma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma
abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio
ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres.
50.
Em vez de resolver os problemas dos pobres e pensar num mundo diferente, alguns
limitam-se a propor uma redução da natalidade. Não faltam pressões
internacionais sobre os países em vias de desenvolvimento, que condicionam as
ajudas económicas a determinadas políticas de «saúde reprodutiva». Mas, «se é
verdade que a desigual distribuição da população e dos recursos disponíveis
cria obstáculos ao desenvolvimento e ao uso sustentável do ambiente, deve-se
reconhecer que o crescimento demográfico é plenamente compatível com um
desenvolvimento integral e solidário».[28] Culpar
o incremento demográfico em vez do consumismo exacerbado e selectivo de alguns
é uma forma de não enfrentar os problemas. Pretende-se, assim, legitimar o
modelo distributivo actual, no qual uma minoria se julga com o direito de
consumir numa proporção que seria impossível generalizar, porque o planeta não
poderia sequer conter os resíduos de tal consumo. Além disso, sabemos que se
desperdiça aproximadamente um terço dos alimentos produzidos, e «a comida que
se desperdiça é como se fosse roubada da mesa do pobre».[29] Em
todo o caso, é verdade que devemos prestar atenção ao desequilíbrio na
distribuição da população pelo território, tanto a nível nacional como a nível
mundial, porque o aumento do consumo levaria a situações regionais complexas
pelas combinações de problemas ligados à poluição ambiental, ao transporte, ao
tratamento de resíduos, à perda de recursos, à qualidade de vida.
51.
A desigualdade não afecta apenas os indivíduos mas países inteiros, e obriga a
pensar numa ética das relações internacionais. Com efeito, há uma verdadeira
«dívida ecológica», particularmente entre o Norte e o Sul, ligada a
desequilíbrios comerciais com consequências no âmbito ecológico e com o uso
desproporcionado dos recursos naturais efectuado historicamente por alguns
países. As exportações de algumas matérias-primas para satisfazer os mercados
no Norte industrializado produziram danos locais, como, por exemplo, a
contaminação com mercúrio na extracção minerária do ouro ou com o dióxido de
enxofre na do cobre. De modo especial é preciso calcular o espaço ambiental de
todo o planeta usado para depositar resíduos gasosos que se foram acumulando ao
longo de dois séculos e criaram uma situação que agora afecta todos os países
do mundo. O aquecimento causado pelo enorme consumo de alguns países ricos tem
repercussões nos lugares mais pobres da terra, especialmente na África, onde o
aumento da temperatura, juntamente com a seca, tem efeitos desastrosos no
rendimento das cultivações. A isto acrescentam-se os danos causados pela
exportação de resíduos sólidos e líquidos tóxicos para os países em vias de
desenvolvimento e pela actividade poluente de empresas que fazem nos países
menos desenvolvidos aquilo que não podem fazer nos países que lhes dão o
capital: «Constatamos frequentemente que as empresas que assim procedem são
multinacionais, que fazem aqui o que não lhes é permitido em países
desenvolvidos ou do chamado primeiro mundo. Geralmente, quando cessam as suas
actividades e se retiram, deixam grandes danos humanos e ambientais, como o
desemprego, aldeias sem vida, esgotamento dalgumas reservas naturais,
desflorestamento, empobrecimento da agricultura e pecuária local, crateras,
colinas devastadas, rios poluídos e qualquer obra social que já não se pode
sustentar».[30]
52.
A dívida externa dos países pobres transformou-se num instrumento de controle,
mas não se dá o mesmo com a dívida ecológica. De várias maneiras os povos em
vias de desenvolvimento, onde se encontram as reservas mais importantes da
biosfera, continuam a alimentar o progresso dos países mais ricos à custa do
seu presente e do seu futuro. A terra dos pobres do Sul é rica e pouco
contaminada, mas o acesso à propriedade de bens e recursos para satisfazerem as
suas carências vitais é-lhes vedado por um sistema de relações comerciais e de
propriedade estruturalmente perverso. É necessário que os países desenvolvidos
contribuam para resolver esta dívida, limitando significativamente o consumo de
energia não renovável e fornecendo recursos aos países mais necessitados para
promover políticas e programas de desenvolvimento sustentável. As regiões e os
países mais pobres têm menos possibilidade de adoptar novos modelos de redução
do impacto ambiental, porque não têm a preparação para desenvolver os processos
necessários nem podem cobrir os seus custos. Por isso, deve-se manter
claramente a consciência de que a mudança climática tem responsabilidades
diversificadas e, como disseram os bispos dos Estados Unidos, é
oportuno concentrar-se «especialmente sobre as necessidades dos pobres, fracos
e vulneráveis, num debate muitas vezes dominado pelos interesses mais
poderosos».[31] É
preciso revigorar a consciência de que somos uma única família humana. Não há
fronteiras nem barreiras políticas ou sociais que permitam isolar-nos e, por
isso mesmo, também não há espaço para a globalização da indiferença.
6.
A fraqueza das reacções
53.
Estas situações provocam os gemidos da irmã terra, que se unem aos gemidos dos
abandonados do mundo, com um lamento que reclama de nós outro rumo. Nunca
maltratámos e ferimos a nossa casa comum como nos últimos dois séculos. Mas
somos chamados a tornar-nos os instrumentos de Deus Pai para que o nosso
planeta seja o que Ele sonhou ao criá-lo e corresponda ao seu projecto de paz,
beleza e plenitude. O problema é que não dispomos ainda da cultura necessária
para enfrentar esta crise e há necessidade de construir lideranças que tracem
caminhos, procurando dar resposta às necessidades das gerações actuais, todos
incluídos, sem prejudicar as gerações futuras. Torna-se indispensável criar um
sistema normativo que inclua limites invioláveis e assegure a protecção dos
ecossistemas, antes que as novas formas de poder derivadas do paradigma
tecno-económico acabem por arrasá-los não só com a política, mas também com a
liberdade e a justiça.
54.
Preocupa a fraqueza da reacção política internacional. A submissão da política
à tecnologia e à finança demonstra-se na falência das cimeiras mundiais sobre o
meio ambiente. Há demasiados interesses particulares e, com muita facilidade, o
interesse económico chega a prevalecer sobre o bem comum e manipular a
informação para não ver afectados os seus projectos. Nesta linha, o Documento
de Aparecida pede que, «nas intervenções sobre os recursos naturais,
não predominem os interesses de grupos económicos que arrasam irracionalmente
as fontes da vida».[32] A
aliança entre economia e tecnologia acaba por deixar de fora tudo o que não faz
parte dos seus interesses imediatos. Deste modo, poder-se-á esperar apenas
algumas proclamações superficiais, acções filantrópicas isoladas e ainda
esforços por mostrar sensibilidade para com o meio ambiente, enquanto, na
realidade, qualquer tentativa das organizações sociais para alterar as coisas
será vista como um distúrbio provocado por sonhadores românticos ou como um
obstáculo a superar.
55.
Pouco a pouco alguns países podem mostrar progressos significativos, o
desenvolvimento de controles mais eficientes e uma luta mais sincera contra a
corrupção. Cresceu a sensibilidade ecológica das populações, mas é ainda
insuficiente para mudar os hábitos nocivos de consumo, que não parecem
diminuir; antes, expandem-se e desenvolvem-se. É o que acontece – só para dar
um exemplo simples – com o crescente aumento do uso e intensidade dos
condicionadores de ar: os mercados, apostando num ganho imediato, estimulam
ainda mais a procura. Se alguém observasse de fora a sociedade planetária,
maravilhar-se-ia com tal comportamento que às vezes parece suicida.
56.
Entretanto os poderes económicos continuam a justificar o sistema mundial
actual, onde predomina uma especulação e uma busca de receitas financeiras que
tendem a ignorar todo o contexto e os efeitos sobre a dignidade humana e sobre
o meio ambiente. Assim se manifesta como estão intimamente ligadas a degradação
ambiental e a degradação humana e ética. Muitos dirão que não têm consciência
de realizar acções imorais, porque a constante distracção nos tira a coragem de
advertir a realidade dum mundo limitado e finito. Por isso, hoje, «qualquer
realidade que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa face aos
interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta».[33]
57.
É previsível que, perante o esgotamento de alguns recursos, se vá criando um
cenário favorável para novas guerras, disfarçadas sob nobres reivindicações. A
guerra causa sempre danos graves ao meio ambiente e à riqueza cultural dos
povos, e os riscos avolumam-se quando se pensa na energia nuclear e nas armas
biológicas. Com efeito, «não obstante haver acordos internacionais que proíbem
a guerra química, bacteriológica e biológica, subsiste o facto de continuarem
nos laboratórios as pesquisas para o desenvolvimento de novas armas ofensivas,
capazes de alterar os equilíbrios naturais».[34] Exige-se
da política uma maior atenção para prevenir e resolver as causas que podem dar
origem a novos conflitos. Entretanto o poder, ligado com a finança, é o que
maior resistência põe a tal esforço, e os projectos políticos carecem muitas
vezes de amplitude de horizonte. Para que se quer preservar hoje um poder que
será recordado pela sua incapacidade de intervir quando era urgente e
necessário fazê-lo?
58.
Nalguns países, há exemplos positivos de resultados na melhoria do ambiente,
tais como o saneamento de alguns rios que foram poluídos durante muitas
décadas, a recuperação de florestas nativas, o embelezamento de paisagens com
obras de saneamento ambiental, projectos de edifícios de grande valor estético,
progressos na produção de energia limpa, na melhoria dos transportes públicos.
Estas acções não resolvem os problemas globais, mas confirmam que o ser humano
ainda é capaz de intervir de forma positiva. Como foi criado para amar, no meio
dos seus limites germinam inevitavelmente gestos de generosidade, solidariedade
e desvelo.
59.
Ao mesmo tempo cresce uma ecologia superficial ou aparente que consolida um
certo torpor e uma alegre irresponsabilidade. Como frequentemente acontece em
épocas de crises profundas, que exigem decisões corajosas, somos tentados a
pensar que aquilo que está a acontecer não é verdade. Se nos detivermos na
superfície, para além de alguns sinais visíveis de poluição e degradação,
parece que as coisas não estejam assim tão graves e que o planeta poderia
subsistir ainda por muito tempo nas condições actuais. Este comportamento
evasivo serve-nos para mantermos os nossos estilos de vida, de produção e
consumo. É a forma como o ser humano se organiza para alimentar todos os vícios
autodestrutivos: tenta não os ver, luta para não os reconhecer, adia as
decisões importantes, age como se nada tivesse acontecido.
7.
Diversidade de opiniões
60.
Finalmente reconhecemos, a propósito da situação e das possíveis soluções, que
se desenvolveram diferentes perspectivas e linhas de pensamento. Num dos
extremos, alguns defendem a todo o custo o mito do progresso, afirmando que os
problemas ecológicos resolver-se-ão simplesmente com novas aplicações técnicas,
sem considerações éticas nem mudanças de fundo. No extremo oposto, outros
pensam que o ser humano, com qualquer uma das suas intervenções, só pode
ameaçar e comprometer o ecossistema mundial, pelo que convém reduzir a sua
presença no planeta e impedir-lhe todo o tipo de intervenção. Entre estes
extremos, a reflexão deveria identificar possíveis cenários futuros, porque não
existe só um caminho de solução. Isto deixaria espaço para uma variedade de
contribuições que poderiam entrar em diálogo a fim de se chegar a respostas
abrangentes.
61.
Sobre muitas questões concretas, a Igreja não tem motivo para propor uma
palavra definitiva e entende que deve escutar e promover o debate honesto entre
os cientistas, respeitando a diversidade de opiniões. Basta, porém, olhar a
realidade com sinceridade, para ver que há uma grande deterioração da nossa
casa comum. A esperança convida-nos a reconhecer que sempre há uma saída,
sempre podemos mudar de rumo, sempre podemos fazer alguma coisa para resolver
os problemas. Todavia parece notar-se sintomas dum ponto de ruptura, por causa
da alta velocidade das mudanças e da degradação, que se manifestam tanto em
catástrofes naturais regionais como em crises sociais ou mesmo financeiras, uma
vez que os problemas do mundo não se podem analisar nem explicar de forma
isolada. Há regiões que já se encontram particularmente em risco e,
prescindindo de qualquer previsão catastrófica, o certo é que o actual sistema
mundial é insustentável a partir de vários pontos de vista, porque deixamos de
pensar nas finalidades da acção humana: «Se o olhar percorre as regiões do
nosso planeta, apercebemo-nos depressa de que a humanidade frustrou a
expectativa divina».[35]
CAPÍTULO II
O EVANGELHO DA CRIAÇÃO
62.
Por que motivo incluir, neste documento dirigido a todas as pessoas de boa
vontade, um capítulo referido às convicções de fé? Não ignoro que alguns, no
campo da política e do pensamento, rejeitam decididamente a ideia de um Criador
ou consideram-na irrelevante, chegando ao ponto de relegar para o reino do
irracional a riqueza que as religiões possam oferecer para uma ecologia
integral e o pleno desenvolvimento do género humano; outras vezes, supõe-se que
elas constituam uma subcultura, que se deve simplesmente tolerar. Todavia a
ciência e a religião, que fornecem diferentes abordagens da realidade, podem
entrar num diálogo intenso e frutuoso para ambas.
1.
A luz que a fé oferece
63.
Se tivermos presente a complexidade da crise ecológica e as suas múltiplas
causas, deveremos reconhecer que as soluções não podem vir duma única maneira
de interpretar e transformar a realidade. É necessário recorrer também às
diversas riquezas culturais dos povos, à arte e à poesia, à vida interior e à
espiritualidade. Se quisermos, de verdade, construir uma ecologia que nos
permita reparar tudo o que temos destruído, então nenhum ramo das ciências e
nenhuma forma de sabedoria pode ser transcurada, nem sequer a sabedoria
religiosa com a sua linguagem própria. Além disso, a Igreja Católica está
aberta ao diálogo com o pensamento filosófico, o que lhe permite produzir
várias sínteses entre fé e razão. No que diz respeito às questões sociais,
pode-se constatar isto mesmo no desenvolvimento da doutrina social da Igreja,
chamada a enriquecer-se cada vez mais a partir dos novos desafios.
64.
Por outro lado, embora esta encíclica se abra a um diálogo com todos para,
juntos, buscarmos caminhos de libertação, quero mostrar desde o início como as
convicções da fé oferecem aos cristãos – e, em parte, também a outros crentes –
motivações altas para cuidar da natureza e dos irmãos e irmãs mais frágeis. Se
pelo simples facto de ser humanas, as pessoas se sentem movidas a cuidar do
ambiente de que fazem parte, «os cristãos, em particular, advertem que a sua
tarefa no seio da criação e os seus deveres em relação à natureza e ao Criador
fazem parte da sua fé».[36] Por
isso é bom, para a humanidade e para o mundo, que nós, crentes, conheçamos
melhor os compromissos ecológicos que brotam das nossas convicções.
2.
A sabedoria das narrações bíblicas
65.
Sem repropor aqui toda a teologia da Criação, queremos saber o que nos dizem as
grandes narrações bíblicas sobre a relação do ser humano com o mundo. Na
primeira narração da obra criadora, no livro do Génesis, o plano de Deus inclui
a criação da humanidade. Depois da criação do homem e da mulher, diz-se que
«Deus, vendo a sua obra, considerou-a muito boa» (Gn 1,
31). A Bíblia ensina que cada ser humano é criado por amor, feito à imagem e
semelhança de Deus (cf. Gn 1, 26). Esta afirmação mostra-nos a
imensa dignidade de cada pessoa humana, que «não é somente alguma coisa, mas
alguém. É capaz de se conhecer, de se possuir e de livremente se dar e entrar
em comunhão com outras pessoas».[37] São João Paulo II recordou que o amor muito
especial que o Criador tem por cada ser humano «confere-lhe uma dignidade
infinita».[38] Todos
aqueles que estão empenhados na defesa da dignidade das pessoas podem
encontrar, na fé cristã, as razões mais profundas para tal compromisso. Como é
maravilhosa a certeza de que a vida de cada pessoa não se perde num caos
desesperador, num mundo regido pelo puro acaso ou por ciclos que se repetem sem
sentido! O Criador pode dizer a cada um de nós: «Antes de te haver formado no
ventre materno, Eu já te conhecia» (Jr 1, 5). Fomos concebidos no
coração de Deus e, por isso, «cada um de nós é o fruto de um pensamento de
Deus. Cada um de nós é querido, cada um de nós é amado, cada um é necessário».[39]
66.
As narrações da criação no livro do Génesis contêm, na sua linguagem simbólica
e narrativa, ensinamentos profundos sobre a existência humana e a sua realidade
histórica. Estas narrações sugerem que a existência humana se baseia sobre três
relações fundamentais intimamente ligadas: as relações com Deus, com o próximo
e com a terra. Segundo a Bíblia, estas três relações vitais romperam-se não só
exteriormente, mas também dentro de nós. Esta ruptura é o pecado. A harmonia
entre o Criador, a humanidade e toda a criação foi destruída por termos
pretendido ocupar o lugar de Deus, recusando reconhecer-nos como criaturas
limitadas. Este facto distorceu também a natureza do mandato de «dominar» a
terra (cf. Gn 1, 28) e de a «cultivar e guardar» (cf. Gn 2,
15). Como resultado, a relação originariamente harmoniosa entre o ser humano e
a natureza transformou-se num conflito (cf. Gn 3, 17-19). Por
isso, é significativo que a harmonia vivida por São Francisco de Assis com
todas as criaturas tenha sido interpretada como uma sanação daquela ruptura.
Dizia São Boaventura que, através da reconciliação universal com todas as criaturas,
Francisco voltara de alguma forma ao estado de inocência original.[40] Longe
deste modelo, o pecado manifesta-se hoje, com toda a sua força de destruição,
nas guerras, nas várias formas de violência e abuso, no abandono dos mais
frágeis, nos ataques contra a natureza.
67.
Não somos Deus. A terra existe antes de nós e foi-nos dada. Isto permite
responder a uma acusação lançada contra o pensamento judaico-cristão: foi dito
que a narração do Génesis, que convida a «dominar» a terra (cf. Gn 1,
28), favoreceria a exploração selvagem da natureza, apresentando uma imagem do
ser humano como dominador e devastador. Mas esta não é uma interpretação
correcta da Bíblia, como a entende a Igreja. Se é verdade que nós, cristãos,
algumas vezes interpretámos de forma incorrecta as Escrituras, hoje devemos
decididamente rejeitar que, do facto de ser criados à imagem de Deus e do
mandato de dominar a terra, se deduza um domínio absoluto sobre as outras
criaturas. É importante ler os textos bíblicos no seu contexto, com uma justa
hermenêutica, e lembrar que nos convidam a «cultivar e guardar» o jardim do
mundo (cf. Gn 2, 15). Enquanto «cultivar» quer dizer lavrar ou
trabalhar um terreno, «guardar» significa proteger, cuidar, preservar, velar.
Isto implica uma relação de reciprocidade responsável entre o ser humano e a
natureza. Cada comunidade pode tomar da bondade da terra aquilo de que
necessita para a sua sobrevivência, mas tem também o dever de a proteger e
garantir a continuidade da sua fertilidade para as gerações futuras. Em última
análise, «ao Senhor pertence a terra» (Sl 24/23, 1), a Ele pertence
«a terra e tudo o que nela existe» (Dt 10, 14). Por isso, Deus
proíbe-nos toda a pretensão de posse absoluta: «Nenhuma terra será vendida
definitivamente, porque a terra pertence-Me, e vós sois apenas estrangeiros e
meus hóspedes» (Lv 25, 23).
68.
Esta responsabilidade perante uma terra que é de Deus implica que o ser humano,
dotado de inteligência, respeite as leis da natureza e os delicados equilíbrios
entre os seres deste mundo, porque «Ele deu uma ordem e tudo foi criado; Ele
fixou tudo pelos séculos sem fim e estabeleceu leis a que não se pode fugir!» (Sl 148,
5b-6). Consequentemente, a legislação bíblica detém-se a propor ao ser humano
várias normas relativas não só às outras pessoas, mas também aos restantes
seres vivos: «Se vires o jumento do teu irmão ou o seu boi caídos no caminho,
não te desvies deles, mas ajuda-os a levantarem-se. (...) Se encontrares no
caminho, em cima de uma árvore ou no chão, um ninho de pássaros com filhotes,
ou ovos cobertos pela mãe, não apanharás a mãe com a ninhada» (Dt 22,
4.6). Nesta linha, o descanso do sétimo dia não é proposto só para o ser
humano, mas «para que descansem o teu boi e o teu jumento» (Ex 23,
12). Assim nos damos conta de que a Bíblia não dá lugar a um antropocentrismo
despótico, que se desinteressa das outras criaturas.
69.
Ao mesmo tempo que podemos fazer um uso responsável das coisas, somos chamados
a reconhecer que os outros seres vivos têm um valor próprio diante de Deus e,
«pelo simples facto de existirem, eles O bendizem e Lhe dão glória»[41],
porque «o Senhor Se alegra em suas obras» (Sl 104/103, 31).
Precisamente pela sua dignidade única e por ser dotado de inteligência, o ser
humano é chamado a respeitar a criação com as suas leis internas, já que «o
Senhor fundou a terra com sabedoria» (Pr 3, 19). Hoje, a Igreja não
diz, de forma simplicista, que as outras criaturas estão totalmente
subordinadas ao bem do ser humano, como se não tivessem um valor em si mesmas e
fosse possível dispor delas à nossa vontade; mas ensina – como fizeram os
bispos da Alemanha – que, nas outras criaturas, «se poderia falar da prioridade
do ser sobre o ser úteis».[42] O Catecismo põe
em questão, de forma muito directa e insistente, um antropocentrismo
desordenado: «Cada criatura possui a sua bondade e perfeição próprias. (...) As
diferentes criaturas, queridas pelo seu próprio ser, reflectem, cada qual a seu
modo, uma centelha da sabedoria e da bondade infinitas de Deus. É por isso que
o homem deve respeitar a bondade própria de cada criatura, para evitar o uso
desordenado das coisas».[43]
70.
Na narração de Caim e Abel, vemos que a inveja levou Caim a cometer a injustiça
extrema contra o seu irmão. Isto, por sua vez, provocou uma ruptura da relação
entre Caim e Deus e entre Caim e a terra, da qual foi exilado. Esta passagem
aparece sintetizada no dramático colóquio de Deus com Caim. Deus pergunta:
«Onde está o teu irmão Abel?» Caim responde que não sabe, e Deus insiste com
ele: «Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da terra até Mim. De
futuro, serás amaldiçoado pela terra (…). Serás vagabundo e fugitivo sobre a
terra» (Gn 4, 9-12). O descuido no compromisso de cultivar e manter
um correcto relacionamento com o próximo, relativamente a quem sou devedor da
minha solicitude e custódia, destrói o relacionamento interior comigo mesmo,
com os outros, com Deus e com a terra. Quando todas estas relações são negligenciadas,
quando a justiça deixa de habitar na terra, a Bíblia diz-nos que toda a vida
está em perigo. Assim no-lo ensina a narração de Noé, quando Deus ameaça acabar
com a humanidade pela sua persistente incapacidade de viver à altura das
exigências da justiça e da paz: «O fim de toda a humanidade chegou diante de
Mim, pois ela encheu a terra de violência» (Gn 6, 13). Nestas
narrações tão antigas, ricas de profundo simbolismo, já estava contida a
convicção actual de que tudo está inter-relacionado e o cuidado autêntico da
nossa própria vida e das nossas relações com a natureza é inseparável da
fraternidade, da justiça e da fidelidade aos outros.
71.
Embora Deus reconhecesse que «a maldade dos homens era grande na terra» (Gn 6,
5), «arrependendo-Se de ter criado o homem sobre a terra» (Gn 6,
6), Ele decidiu abrir um caminho de salvação através de Noé, que ainda se
mantinha íntegro e justo. Assim deu à humanidade a possibilidade de um novo
início. Basta um homem bom para haver esperança! A tradição bíblica estabelece
claramente que esta reabilitação implica a redescoberta e o respeito dos ritmos
inscritos na natureza pela mão do Criador. Isto está patente, por exemplo, na
lei do Shabbath. No sétimo dia, Deus descansou de todas as suas
obras. Deus ordenou a Israel que cada sétimo dia devia ser celebrado como um
dia de descanso, um Shabbath (cf. Gn 2, 2-3; Ex 16,
23; 20, 10). Além disso, de sete em sete anos, instaurou-se também um ano
sabático para Israel e a sua terra (cf. Lv 25, 1-4), durante o
qual se dava descanso completo à terra, não se semeava e só se colhia o
indispensável para sobreviver e oferecer hospitalidade (cf. Lv 25,
4-6). Por fim, passadas sete semanas de anos, ou seja quarenta e nove anos,
celebrava-se o jubileu, um ano de perdão universal, «proclamando na vossa terra
a liberdade de todos os que a habitam» (Lv 25, 10). O
desenvolvimento desta legislação procurou assegurar o equilíbrio e a equidade
nas relações do ser humano com os outros e com a terra onde vivia e trabalhava.
Mas, ao mesmo tempo, era um reconhecimento de que a dádiva da terra com os seus
frutos pertence a todo o povo. Aqueles que cultivavam e guardavam o território
deviam partilhar os seus frutos, especialmente com os pobres, as viúvas, os
órfãos e os estrangeiros: «Quando procederes à ceifa das vossas terras, não
ceifarás as espigas até à extremidade do campo, e não apanharás as espigas
caídas. Não rebuscarás também a tua vinha, e não apanharás os bagos caídos.
Deixá-los-ás para o pobre e para o estrangeiro» (Lv 19, 9-10).
72.
Os Salmos convidam, frequentemente, o ser humano a louvar a Deus criador:
«Estendeu a terra sobre as águas, porque o seu amor é eterno» (Sl 136/135,
6). E convidam também as outras criaturas a louvá-Lo: «Louvai-O, sol e lua;
louvai-O, estrelas luminosas! Louvai-O, alturas dos céus e águas que estais
acima dos céus! Louvem todos o nome do Senhor, porque Ele deu uma ordem e tudo
foi criado» (Sl 148, 3-5). Existimos não só pelo poder de Deus, mas
também na sua presença e companhia. Por isso O adoramos.
73.
Os escritos dos profetas convidam a recuperar forças, nos momentos difíceis,
contemplando a Deus poderoso que criou o universo. O poder infinito de Deus não
nos leva a escapar da sua ternura paterna, porque n’Ele se conjugam o carinho e
a força. Na verdade, toda a sã espiritualidade implica simultaneamente acolher
o amor divino e adorar, com confiança, o Senhor pelo seu poder infinito. Na
Bíblia, o Deus que liberta e salva é o mesmo que criou o universo, e estes dois
modos de agir divino estão íntima e inseparavelmente ligados: «Ah! Senhor Deus,
foste Tu que fizeste o céu e a terra com o teu grande poder e o teu braço
estendido! Para Ti, nada é impossível! (...) Tu fizeste sair do Egipto o teu
povo, Israel, com prodígios e milagres» (Jr 32, 17.21). «O Senhor é
um Deus eterno, que criou os confins da terra. Não se cansa nem perde as
forças. É insondável a sua sabedoria. Ele dá forças ao cansado e enche de vigor
o fraco» (Is 40, 28b-29).
74.
A experiência do cativeiro em Babilónia gerou uma crise espiritual que levou a
um aprofundamento da fé em Deus, explicitando a sua omnipotência criadora, para
animar o povo a recuperar a esperança no meio da sua situação infeliz. Séculos
mais tarde, noutro momento de prova e perseguição, quando o Império Romano
procurou impor um domínio absoluto, os fiéis voltaram a encontrar consolação e
esperança aumentando a sua confiança em Deus omnipotente, e cantavam: «Grandes
e admiráveis são as tuas obras, Senhor Deus todo-poderoso! Justos e verdadeiros
são os teus caminhos!» (Ap 15, 3). Se Deus pôde criar o universo a
partir do nada, também pode intervir neste mundo e vencer qualquer forma de
mal. Por isso, a injustiça não é invencível.
75.
Não podemos defender uma espiritualidade que esqueça Deus todo-poderoso e
criador. Neste caso, acabaríamos por adorar outros poderes do mundo, ou
colocar-nos-íamos no lugar do Senhor chegando à pretensão de espezinhar sem
limites a realidade criada por Ele. A melhor maneira de colocar o ser humano no
seu lugar e acabar com a sua pretensão de ser dominador absoluto da terra, é
voltar a propor a figura de um Pai criador e único dono do mundo; caso
contrário, o ser humano tenderá sempre a querer impor à realidade as suas
próprias leis e interesses.
3.
O mistério do universo
76.
Na tradição judaico-cristã, dizer «criação» é mais do que dizer natureza,
porque tem a ver com um projecto do amor de Deus, onde cada criatura tem um
valor e um significado. A natureza entende-se habitualmente como um sistema que
se analisa, compreende e gere, mas a criação só se pode conceber como um dom
que vem das mãos abertas do Pai de todos, como uma realidade iluminada pelo
amor que nos chama a uma comunhão universal.
77.
«A palavra do Senhor criou os céus» (Sl 33/32, 6). Deste modo
indica-se que o mundo procede, não do caos nem do acaso, mas duma decisão, o
que o exalta ainda mais. Há uma opção livre, expressa na palavra criadora. O
universo não apareceu como resultado duma omnipotência arbitrária, duma
demonstração de força ou dum desejo de auto-afirmação. A criação pertence à
ordem do amor. O amor de Deus é a razão fundamental de toda a criação: «Tu amas
tudo quanto existe e não detestas nada do que fizeste; pois, se odiasses alguma
coisa, não a terias criado» (Sab 11, 24). Então cada criatura é
objecto da ternura do Pai que lhe atribui um lugar no mundo. Até a vida efémera
do ser mais insignificante é objecto do seu amor e, naqueles poucos segundos de
existência, Ele envolve-o com o seu carinho. Dizia São Basílio Magno que o
Criador é também «a bondade sem cálculos»,[44] e
Dante Alighieri falava do «amor que move o sol e as outras estrelas».[45] Por
isso, das obras criadas pode-se subir «à sua amorosa misericórdia».[46]
78.
Ao mesmo tempo, o pensamento judaico-cristão desmitificou a natureza. Sem
deixar de a admirar pelo seu esplendor e imensidão, já não lhe atribui um
carácter divino. Deste modo, ressalta ainda mais o nosso compromisso para com
ela. Um regresso à natureza não pode ser feito à custa da liberdade e da
responsabilidade do ser humano, que é parte do mundo com o dever de cultivar as
próprias capacidades para o proteger e desenvolver as suas potencialidades. Se
reconhecermos o valor e a fragilidade da natureza e, ao mesmo tempo, as
capacidades que o Criador nos deu, isto permite-nos acabar hoje com o mito
moderno do progresso material ilimitado. Um mundo frágil, com um ser humano a quem
Deus confia o cuidado do mesmo, interpela a nossa inteligência para reconhecer
como deveremos orientar, cultivar e limitar o nosso poder.
79.
Neste universo, composto por sistemas abertos que entram em comunicação uns com
os outros, podemos descobrir inumeráveis formas de relação e participação. Isto
leva-nos também a pensar o todo como aberto à transcendência de Deus, dentro da
qual se desenvolve. A fé permite-nos interpretar o significado e a beleza
misteriosa do que acontece. A liberdade humana pode prestar a sua contribuição
inteligente para uma evolução positiva, como pode também acrescentar novos
males, novas causas de sofrimento e verdadeiros atrasos. Isto dá lugar à
apaixonante e dramática história humana, capaz de transformar-se num desabrochamento
de libertação, engrandecimento, salvação e amor, ou, pelo contrário, num
percurso de declínio e mútua destruição. Por isso a Igreja, com a sua acção,
procura não só lembrar o dever de cuidar da natureza, mas também e «sobretudo
proteger o homem da destruição de si mesmo».[47]
80.
Apesar disso, Deus, que deseja actuar connosco e contar com a nossa cooperação,
é capaz também de tirar algo de bom dos males que praticamos, porque «o
Espírito Santo possui uma inventiva infinita, própria da mente divina, que sabe
prover a desfazer os nós das vicissitudes humanas mais complexas e
impenetráveis».[48] De
certa maneira, quis limitar-Se a Si mesmo, criando um mundo necessitado de
desenvolvimento, onde muitas coisas que consideramos males, perigos ou fontes
de sofrimento, na realidade fazem parte das dores de parto que nos estimulam a
colaborar com o Criador.[49] Ele
está presente no mais íntimo de cada coisa sem condicionar a autonomia da sua
criatura, e isto dá lugar também à legítima autonomia das realidades terrenas.[50]Esta
presença divina, que garante a permanência e o desenvolvimento de cada ser, «é
a continuação da acção criadora».[51] O
Espírito de Deus encheu o universo de potencialidades que permitem que, do
próprio seio das coisas, possa brotar sempre algo de novo: «A natureza nada mais
é do que a razão de certa arte – concretamente a arte divina – inscrita nas
coisas, pela qual as próprias coisas se movem para um fim determinado. Como se
o mestre construtor de navios pudesse conceder à madeira a possibilidade de se
mover a si mesma para tomar a forma da nave».[52]
81.
Embora suponha também processos evolutivos, o ser humano implica uma novidade
que não se explica cabalmente pela evolução doutros sistemas abertos. Cada um
de nós tem em si uma identidade pessoal, capaz de entrar em diálogo com os
outros e com o próprio Deus. A capacidade de reflexão, o raciocínio, a
criatividade, a interpretação, a elaboração artística e outras capacidades
originais manifestam uma singularidade que transcende o âmbito físico e
biológico. A novidade qualitativa, implicada no aparecimento dum ser pessoal
dentro do universo material, pressupõe uma acção directa de Deus, uma chamada
peculiar à vida e à relação de um Tu com outro tu. A partir dos textos
bíblicos, consideramos o ser humano como sujeito, que nunca pode ser reduzido à
categoria de objecto.
82.
Mas seria errado também pensar que os outros seres vivos devam ser considerados
como meros objectos submetidos ao domínio arbitrário do ser humano. Quando se
propõe uma visão da natureza unicamente como objecto de lucro e interesse, isso
comporta graves consequências também para a sociedade. A visão que consolida o
arbítrio do mais forte favoreceu imensas desigualdades, injustiças e violências
para a maior parte da humanidade, porque os recursos tornam-se propriedade do
primeiro que chega ou de quem tem mais poder: o vencedor leva tudo. O ideal de
harmonia, justiça, fraternidade e paz que Jesus propõe situa-se nos antípodas
de tal modelo, como Ele mesmo Se expressou ao compará-lo com os poderes do seu
tempo: «Sabeis que os chefes das nações as governam como seus senhores, e que
os grandes exercem sobre elas o seu poder. Não seja assim entre vós. Pelo
contrário, quem entre vós quiser fazer-se grande, seja o vosso servo» (Mt 20,
25-26).
83.
A meta do caminho do universo situa-se na plenitude de Deus, que já foi
alcançada por Cristo ressuscitado, fulcro da maturação universal.[53] E
assim juntamos mais um argumento para rejeitar todo e qualquer domínio
despótico e irresponsável do ser humano sobre as outras criaturas. O fim último
das restantes criaturas não somos nós. Mas todas avançam, juntamente connosco e
através de nós, para a meta comum, que é Deus, numa plenitude transcendente
onde Cristo ressuscitado tudo abraça e ilumina. Com efeito, o ser humano,
dotado de inteligência e amor e atraído pela plenitude de Cristo, é chamado a
reconduzir todas as criaturas ao seu Criador.
4.
A mensagem de cada criatura na harmonia de toda a criação
84.
O facto de insistir na afirmação de que o ser humano é imagem de Deus não
deveria fazer-nos esquecer que cada criatura tem uma função e nenhuma é
supérflua. Todo o universo material é uma linguagem do amor de Deus, do seu
carinho sem medida por nós. O solo, a água, as montanhas: tudo é carícia de
Deus. A história da própria amizade com Deus desenrola-se sempre num espaço
geográfico que se torna um sinal muito pessoal, e cada um de nós guarda na
memória lugares cuja lembrança nos faz muito bem. Quem cresceu no meio de
montes, quem na infância se sentava junto do riacho a beber, ou quem jogava
numa praça do seu bairro, quando volta a esses lugares sente-se chamado a
recuperar a sua própria identidade.
85.
Deus escreveu um livro estupendo, «cujas letras são representadas pela multidão
de criaturas presentes no universo».[54] E
justamente afirmaram os bispos do Canadá que nenhuma criatura fica fora desta
manifestação de Deus: «Desde os panoramas mais amplos às formas de vida mais
frágeis, a natureza é um manancial incessante de encanto e reverência. Trata-se
duma contínua revelação do divino».[55]Os
bispos do Japão, por sua vez, disseram algo muito sugestivo: «Sentir cada
criatura que canta o hino da sua existência é viver jubilosamente no amor de
Deus e na esperança».[56] Esta
contemplação da criação permite-nos descobrir qualquer ensinamento que Deus nos
quer transmitir através de cada coisa, porque, «para o crente, contemplar a
criação significa também escutar uma mensagem, ouvir uma voz paradoxal e
silenciosa».[57] Podemos
afirmar que, «ao lado da revelação propriamente dita, contida nas Sagradas
Escrituras, há uma manifestação divina no despontar do sol e no cair da noite».[58] Prestando
atenção a esta manifestação, o ser humano aprende a reconhecer-se a si mesmo na
relação com as outras criaturas: «Eu expresso-me exprimindo o mundo; exploro a
minha sacralidade decifrando a do mundo».[59]
86.
O conjunto do universo, com as suas múltiplas relações, mostra melhor a riqueza
inesgotável de Deus. São Tomás de Aquino sublinhava, sabiamente, que a
multiplicidade e a variedade «provêm da intenção do primeiro agente», o Qual
quis que «o que falta a cada coisa, para representar a bondade divina, seja
suprido pelas outras»,[60] pois
a sua bondade «não pode ser convenientemente representada por uma só criatura».[61] Por
isso, precisamos de individuar a variedade das coisas nas suas múltiplas relações.[62] Assim,
compreende-se melhor a importância e o significado de qualquer criatura, se a
contemplarmos no conjunto do plano de Deus. Tal é o ensinamento do Catecismo:
«A interdependência das criaturas é querida por Deus. O sol e a lua, o cedro e
a florzinha, a águia e o pardal: o espectáculo das suas incontáveis
diversidades e desigualdades significa que nenhuma criatura se basta a si
mesma. Elas só existem na dependência umas das outras, para se completarem
mutuamente no serviço umas das outras».[63]
87.
Quando nos damos conta do reflexo de Deus em tudo o que existe, o coração
experimenta o desejo de adorar o Senhor por todas as suas criaturas e
juntamente com elas, como se vê neste gracioso cântico de São Francisco de
Assis:
«Louvado sejas, meu Senhor,
com todas as tuas criaturas,
especialmente o meu senhor irmão sol,
o qual faz o dia e por ele nos alumia.
E ele é belo e radiante com grande esplendor:
de Ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem.
Louvado sejas, meu Senhor,
pela irmã lua e pelas estrelas,
que no céu formaste claras, preciosas e belas.
Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento
pelo ar, pela nuvem, pelo sereno, e todo o tempo,
com o qual, às tuas criaturas, dás o sustento.
Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água,
que é tão útil e humilde, e preciosa e casta.
Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo,
pelo qual iluminas a noite:
ele é belo e alegre, vigoroso e forte».[64]
com todas as tuas criaturas,
especialmente o meu senhor irmão sol,
o qual faz o dia e por ele nos alumia.
E ele é belo e radiante com grande esplendor:
de Ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem.
Louvado sejas, meu Senhor,
pela irmã lua e pelas estrelas,
que no céu formaste claras, preciosas e belas.
Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento
pelo ar, pela nuvem, pelo sereno, e todo o tempo,
com o qual, às tuas criaturas, dás o sustento.
Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água,
que é tão útil e humilde, e preciosa e casta.
Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo,
pelo qual iluminas a noite:
ele é belo e alegre, vigoroso e forte».[64]
88.
Os bispos do Brasil sublinharam que toda a natureza, além de manifestar Deus, é
lugar da sua presença. Em cada criatura, habita o seu Espírito vivificante, que
nos chama a um relacionamento com Ele.[65] A
descoberta desta presença estimula em nós o desenvolvimento das «virtudes
ecológicas».[66] Mas,
quando dizemos isto, não esqueçamos que há também uma distância infinita, pois
as coisas deste mundo não possuem a plenitude de Deus. Esquecê-lo, aliás,
também não faria bem às criaturas, porque não reconheceríamos o seu lugar
verdadeiro e próprio, acabando por lhes exigir indevidamente aquilo que, na sua
pequenez, não nos podem dar.
5.
Uma comunhão universal
89.
As criaturas deste mundo não podem ser consideradas um bem sem dono: «Todas são
tuas, ó Senhor, que amas a vida» (Sab 11, 26). Isto gera a
convicção de que nós e todos os seres do universo, sendo criados pelo mesmo
Pai, estamos unidos por laços invisíveis e formamos uma espécie de família
universal, uma comunhão sublime que nos impele a um respeito sagrado, amoroso e
humilde. Quero lembrar que «Deus uniu-nos tão estreitamente ao mundo que nos
rodeia, que a desertificação do solo é como uma doença para cada um, e podemos
lamentar a extinção de uma espécie como se fosse uma mutilação».[67]
90.
Isto não significa igualar todos os seres vivos e tirar ao ser humano aquele
seu valor peculiar que, simultaneamente, implica uma tremenda responsabilidade.
Também não requer uma divinização da terra, que nos privaria da nossa vocação
de colaborar com ela e proteger a sua fragilidade. Estas concepções acabariam
por criar novos desequilíbrios, na tentativa de fugir da realidade que nos
interpela.[68] Às
vezes nota-se a obsessão de negar qualquer preeminência à pessoa humana,
conduzindo-se uma luta em prol das outras espécies que não se vê na hora de
defender igual dignidade entre os seres humanos. Devemos, certamente, ter a
preocupação de que os outros seres vivos não sejam tratados de forma
irresponsável, mas deveriam indignar-nos sobretudo as enormes desigualdades que
existem entre nós, porque continuamos a tolerar que alguns se considerem mais
dignos do que outros. Deixamos de notar que alguns se arrastam numa miséria
degradante, sem possibilidades reais de melhoria, enquanto outros não sabem
sequer que fazer ao que têm, ostentam vaidosamente uma suposta superioridade e
deixam atrás de si um nível de desperdício tal que seria impossível generalizar
sem destruir o planeta. Na prática, continuamos a admitir que alguns se sintam
mais humanos que outros, como se tivessem nascido com maiores direitos.
91.
Não pode ser autêntico um sentimento de união íntima com os outros seres da
natureza, se ao mesmo tempo não houver no coração ternura, compaixão e
preocupação pelos seres humanos. É evidente a incoerência de quem luta contra o
tráfico de animais em risco de extinção, mas fica completamente indiferente
perante o tráfico de pessoas, desinteressa-se dos pobres ou procura destruir
outro ser humano de que não gosta. Isto compromete o sentido da luta pelo meio
ambiente. Não é por acaso que São Francisco, no cântico onde louva a Deus pelas
criaturas, acrescenta o seguinte: «Louvado sejas, meu Senhor, por aqueles que
perdoam por teu amor». Tudo está interligado. Por isso, exige-se uma
preocupação pelo meio ambiente, unida ao amor sincero pelos seres humanos e a
um compromisso constante com os problemas da sociedade.
92.
Além disso, quando o coração está verdadeiramente aberto a uma comunhão
universal, nada e ninguém fica excluído desta fraternidade. Portanto, é verdade
também que a indiferença ou a crueldade com as outras criaturas deste mundo
sempre acabam de alguma forma por repercutir-se no tratamento que reservamos
aos outros seres humanos. O coração é um só, e a própria miséria que leva a
maltratar um animal não tarda a manifestar-se na relação com as outras pessoas.
Todo o encarniçamento contra qualquer criatura «é contrário à dignidade
humana».[69] Não
podemos considerar-nos grandes amantes da realidade, se excluímos dos nossos
interesses alguma parte dela: «Paz, justiça e conservação da criação são três
questões absolutamente ligadas, que não se poderão separar, tratando-as
individualmente sob pena de cair novamente no reducionismo».[70] Tudo
está relacionado, e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e
irmãs numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada
uma das suas criaturas e que nos une também, com terna afeição, ao irmão sol, à
irmã lua, ao irmão rio e à mãe terra.
6.
O destino comum dos bens
93.
Hoje, crentes e não-crentes estão de acordo que a terra é, essencialmente, uma
herança comum, cujos frutos devem beneficiar a todos. Para os crentes, isto
torna-se uma questão de fidelidade ao Criador, porque Deus criou o mundo para
todos. Por conseguinte, toda a abordagem ecológica deve integrar uma
perspectiva social que tenha em conta os direitos fundamentais dos mais
desfavorecidos. O princípio da subordinação da propriedade privada ao destino
universal dos bens e, consequentemente, o direito universal ao seu uso é uma
«regra de ouro» do comportamento social e o «primeiro princípio de toda a ordem
ético-social».[71] A
tradição cristã nunca reconheceu como absoluto ou intocável o direito à
propriedade privada, e salientou a função social de qualquer forma de
propriedade privada. São João Paulo II lembrou esta doutrina, com
grande ênfase, dizendo que «Deus deu a terra a todo o género humano, para que
ela sustente todos os seus membros, sem excluir nem privilegiar ninguém».[72]São
palavras densas e fortes. Insistiu que «não seria verdadeiramente digno do
homem, um tipo de desenvolvimento que não respeitasse e promovesse os direitos
humanos, pessoais e sociais, económicos e políticos, incluindo os direitos das
nações e dos povos».[73]Com
grande clareza, explicou que «a Igreja defende, sim, o legítimo direito à
propriedade privada, mas ensina, com não menor clareza, que sobre toda a
propriedade particular pesa sempre uma hipoteca social, para que os bens sirvam
ao destino geral que Deus lhes deu».[74] Por
isso, afirma que «não é segundo o desígnio de Deus gerir este dom de modo tal
que os seus benefícios aproveitem só a alguns poucos».[75] Isto
põe seriamente em discussão os hábitos injustos duma parte da humanidade.[76]
94.
O rico e o pobre têm igual dignidade, porque «quem os fez a ambos foi o Senhor»
(Pr 22, 2); «Ele criou o pequeno e o grande» (Sab 6, 7)
e «faz com que o sol se levante sobre os bons e os maus» (Mt 5,
45). Isto tem consequências práticas, como explicitaram os bispos do Paraguai:
«Cada camponês tem direito natural de possuir um lote razoável de terra, onde
possa estabelecer o seu lar, trabalhar para a subsistência da sua família e
gozar de segurança existencial. Este direito deve ser de tal forma garantido,
que o seu exercício não seja ilusório mas real. Isto significa que, além do
título de propriedade, o camponês deve contar com meios de formação técnica,
empréstimos, seguros e acesso ao mercado».[77]
95.
O meio ambiente é um bem colectivo, património de toda a humanidade e
responsabilidade de todos. Quem possui uma parte é apenas para a administrar em
benefício de todos. Se não o fizermos, carregamos na consciência o peso de
negar a existência aos outros. Por isso, os bispos da Nova Zelândia
perguntavam-se que significado possa ter o mandamento «não matarás», quando «uns
vinte por cento da população mundial consomem recursos numa medida tal que
roubam às nações pobres, e às gerações futuras, aquilo de que necessitam para
sobreviver».[78]
7.
O olhar de Jesus
96.
Jesus retoma a fé bíblica no Deus criador e destaca um dado fundamental: Deus é
Pai (cf. Mt 11, 25). Em colóquio com os seus discípulos, Jesus
convidava-os a reconhecer a relação paterna que Deus tem com todas as criaturas
e recordava-lhes, com comovente ternura, como cada uma delas era importante aos
olhos d’Ele: «Não se vendem cinco pássaros por duas pequeninas moedas? Contudo,
nenhum deles passa despercebido diante de Deus» (Lc 12, 6). «Olhai
as aves do céu: não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros; e o vosso Pai
celeste alimenta-as» (Mt 6, 26).
97.
O Senhor podia convidar os outros a estar atentos à beleza que existe no mundo,
porque Ele próprio vivia em contacto permanente com a natureza e prestava-lhe
uma atenção cheia de carinho e admiração. Quando percorria os quatro cantos da
sua terra, detinha-Se a contemplar a beleza semeada por seu Pai e convidava os
discípulos a individuarem, nas coisas, uma mensagem divina: «Levantai os olhos
e vede os campos que estão doirados para a ceifa» (Jo 4, 35). «O
Reino dos Céus é semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou
no seu campo. É a menor de todas as sementes; mas, depois de crescer, torna-se
a maior planta do horto e transforma-se numa árvore» (Mt 13,
31-32).
98.
Jesus vivia em plena harmonia com a criação, com grande maravilha dos outros:
«Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?» (Mt 8, 27). Não
Se apresentava como um asceta separado do mundo ou inimigo das coisas
aprazíveis da vida. Falando de Si mesmo, declarou: «Veio o Filho do Homem que
come e bebe, e dizem: “Aí está um glutão e bebedor de vinho”» (Mt11,
19). Encontrava-Se longe das filosofias que desprezavam o corpo, a matéria e as
realidades deste mundo. Todavia, ao longo da história, estes dualismos
combalidos tiveram notável influência nalguns pensadores cristãos e
desfiguraram o Evangelho. Jesus trabalhava com suas mãos, entrando diariamente
em contacto com matéria criada por Deus para a moldar com a sua capacidade de
artesão. É digno de nota que a maior parte da sua existência terrena tenha sido
consagrada a esta tarefa, levando uma vida simples que não despertava maravilha
alguma: «Não é Ele o carpinteiro, o filho de Maria?» (Mc 6, 3).
Assim santificou o trabalho, atribuindo-lhe um valor peculiar para o nosso
amadurecimento. São João Paulo II ensinava que, «suportando o que
há de penoso no trabalho em união com Cristo crucificado por nós, o homem
colabora, de alguma forma, com o Filho de Deus na redenção da humanidade».[79]
99.
Segundo a compreensão cristã da realidade, o destino da criação inteira passa
pelo mistério de Cristo, que nela está presente desde a origem: «Todas as
coisas foram criadas por Ele e para Ele» (Cl 1, 16).[80] O
prólogo do Evangelho de João (1, 1-18) mostra a actividade criadora de Cristo
como Palavra divina (Logos). Mas o mesmo prólogo surpreende ao afirmar
que esta Palavra «Se fez carne» (Jo 1, 14). Uma Pessoa da
Santíssima Trindade inseriu-Se no universo criado, partilhando a própria sorte
com ele até à cruz. Desde o início do mundo, mas de modo peculiar a partir da
encarnação, o mistério de Cristo opera veladamente no conjunto da realidade
natural, sem com isso afectar a sua autonomia.
100.
O Novo Testamento não nos fala só de Jesus terreno e da sua relação tão
concreta e amorosa com o mundo; mostra-no-Lo também como ressuscitado e
glorioso, presente em toda a criação com o seu domínio universal. «Foi n’Ele
que aprouve a Deus fazer habitar toda a plenitude e, por Ele e para Ele,
reconciliar todas as coisas (…), tanto as que estão na terra como as que estão
no céu» (Cl 1, 19-20). Isto lança-nos para o fim dos tempos, quando
o Filho entregar ao Pai todas as coisas «a fim de que Deus seja tudo em todos»
(1 Cor 15, 28). Assim, as criaturas deste mundo já não nos aparecem
como uma realidade meramente natural, porque o Ressuscitado as envolve
misteriosamente e guia para um destino de plenitude. As próprias flores do
campo e as aves que Ele, admirado, contemplou com os seus olhos humanos, agora
estão cheias da sua presença luminosa.
CAPÍTULO III
A RAIZ HUMANA DA CRISE ECOLÓGICA
101.
Para nada serviria descrever os sintomas, se não reconhecêssemos a raiz humana
da crise ecológica. Há um modo desordenado de conceber a vida e a acção do ser
humano, que contradiz a realidade até ao ponto de a arruinar. Não poderemos
deter-nos a pensar nisto mesmo? Proponho, pois, que nos concentremos no
paradigma tecnocrático dominante e no lugar que ocupa nele o ser humano e a sua
acção no mundo.
1.
A tecnologia: criatividade e poder
102.
A humanidade entrou numa nova era, em que o poder da tecnologia nos põe diante
duma encruzilhada. Somos herdeiros de dois séculos de ondas enormes de
mudanças: a máquina a vapor, a ferrovia, o telégrafo, a electricidade, o
automóvel, o avião, as indústrias químicas, a medicina moderna, a informática
e, mais recentemente, a revolução digital, a robótica, as biotecnologias e as
nanotecnologias. É justo que nos alegremos com estes progressos e nos
entusiasmemos à vista das amplas possibilidades que nos abrem estas novidades
incessantes, porque «a ciência e a tecnologia são um produto estupendo da
criatividade humana que Deus nos deu».[81] A
transformação da natureza para fins úteis é uma característica do género
humano, desde os seus primórdios; e assim a técnica «exprime a tensão do ânimo
humano para uma gradual superação de certos condicionamentos materiais».[82] A
tecnologia deu remédio a inúmeros males, que afligiam e limitavam o ser humano.
Não podemos deixar de apreciar e agradecer os progressos alcançados
especialmente na medicina, engenharia e comunicações. Como não havemos de
reconhecer todos os esforços de tantos cientistas e técnicos que elaboraram
alternativas para um desenvolvimento sustentável?
103.
A tecnociência, bem orientada, pode produzir coisas realmente valiosas para
melhorar a qualidade de vida do ser humano, desde os objectos de uso doméstico
até aos grandes meios de transporte, pontes, edifícios, espaços públicos. É
capaz também de produzir coisas belas e fazer o ser humano, imerso no mundo
material, dar o «salto» para o âmbito da beleza. Poder-se-á negar a beleza de
um avião ou de alguns arranha-céus? Há obras pictóricas e musicais de valor,
obtidas com o recurso aos novos instrumentos técnicos. Assim, no desejo de
beleza do artífice e em quem contempla esta beleza dá-se o salto para uma certa
plenitude propriamente humana.
104.
Não podemos, porém, ignorar que a energia nuclear, a biotecnologia, a
informática, o conhecimento do nosso próprio DNA e outras potencialidades que
adquirimos, nos dão um poder tremendo. Ou melhor: dão, àqueles que detêm o
conhecimento e sobretudo o poder económico para o desfrutar, um domínio
impressionante sobre o conjunto do género humano e do mundo inteiro. Nunca a
humanidade teve tanto poder sobre si mesma, e nada garante que o utilizará bem,
sobretudo se se considera a maneira como o está a fazer. Basta lembrar as
bombas atómicas lançadas em pleno século XX, bem como a grande exibição de
tecnologia ostentada pelo nazismo, o comunismo e outros regimes totalitários e
que serviu para o extermínio de milhões de pessoas, sem esquecer que hoje a
guerra dispõe de instrumentos cada vez mais mortíferos. Nas mãos de quem está e
pode chegar a estar tanto poder? É tremendamente arriscado que resida numa
pequena parte da humanidade.
105.
Tende-se a crer que «toda a aquisição de poder seja simplesmente progresso,
aumento de segurança, de utilidade, de bem-estar, de força vital, de plenitude
de valores»[83],
como se a realidade, o bem e a verdade desabrochassem espontaneamente do
próprio poder da tecnologia e da economia. A verdade é que «o homem moderno não
foi educado para o recto uso do poder»,[84] porque
o imenso crescimento tecnológico não foi acompanhado por um desenvolvimento do
ser humano quanto à responsabilidade, aos valores, à consciência. Cada época
tende a desenvolver uma reduzida autoconsciência dos próprios limites. Por
isso, é possível que hoje a humanidade não se dê conta da seriedade dos
desafios que se lhe apresentam, e «cresce continuamente a possibilidade de o
homem fazer mau uso do seu poder» quando «não existem normas de liberdade, mas
apenas pretensas necessidades de utilidade e segurança».[85] O
ser humano não é plenamente autónomo. A sua liberdade adoece, quando se entrega
às forças cegas do inconsciente, das necessidades imediatas, do egoísmo, da
violência brutal. Neste sentido, ele está nu e exposto frente ao seu próprio
poder que continua a crescer, sem ter os instrumentos para o controlar. Talvez
disponha de mecanismos superficiais, mas podemos afirmar que carece de uma
ética sólida, uma cultura e uma espiritualidade que lhe ponham realmente um
limite e o contenham dentro dum lúcido domínio de si.
2.
A globalização do paradigma tecnocrático
106.
Mas o problema fundamental é outro e ainda mais profundo: o modo como realmente
a humanidade assumiu a tecnologia e o seu desenvolvimento juntamente
com um paradigma homogéneo e unidimensional. Neste paradigma, sobressai uma
concepção do sujeito que progressivamente, no processo lógico-racional,
compreende e assim se apropria do objecto que se encontra fora. Um tal sujeito
desenvolve-se ao estabelecer o método científico com a sua experimentação, que
já é explicitamente uma técnica de posse, domínio e transformação. É como se o
sujeito tivesse à sua frente a realidade informe totalmente disponível para a
manipulação. Sempre se verificou a intervenção do ser humano sobre a natureza,
mas durante muito tempo teve a característica de acompanhar, secundar as
possibilidades oferecidas pelas próprias coisas; tratava-se de receber o que a
realidade natural por si permitia, como que estendendo a mão. Mas, agora, o que
interessa é extrair o máximo possível das coisas por imposição da mão humana,
que tende a ignorar ou esquecer a realidade própria do que tem à sua frente.
Por isso, o ser humano e as coisas deixaram de se dar amigavelmente a mão,
tornando-se contendentes. Daqui passa-se facilmente à ideia dum crescimento
infinito ou ilimitado, que tanto entusiasmou os economistas, os teóricos da
finança e da tecnologia. Isto supõe a mentira da disponibilidade infinita dos
bens do planeta, que leva a «espremê-lo» até ao limite e para além do mesmo. Trata-se
do falso pressuposto de que «existe uma quantidade ilimitada de energia e de
recursos a serem utilizados, que a sua regeneração é possível de imediato e que
os efeitos negativos das manipulações da ordem natural podem ser facilmente
absorvidos».[86]
107.
Assim podemos afirmar que, na origem de muitas dificuldades do mundo actual,
está principalmente a tendência, nem sempre consciente, de elaborar a
metodologia e os objectivos da tecnociência segundo um paradigma de compreensão
que condiciona a vida das pessoas e o funcionamento da sociedade. Os efeitos da
aplicação deste modelo a toda a realidade, humana e social, constatam-se na
degradação do meio ambiente, mas isto é apenas um sinal do reducionismo que
afecta a vida humana e a sociedade em todas as suas dimensões. É preciso
reconhecer que os produtos da técnica não são neutros, porque criam uma trama que
acaba por condicionar os estilos de vida e orientam as possibilidades sociais
na linha dos interesses de determinados grupos de poder. Certas opções, que
parecem puramente instrumentais, na realidade são opções sobre o tipo de vida
social que se pretende desenvolver.
108.
Não se consegue pensar que seja possível sustentar outro paradigma cultural e
servir-se da técnica como mero instrumento, porque hoje o paradigma
tecnocrático tornou-se tão dominante que é muito difícil prescindir dos seus
recursos, e mais difícil ainda é utilizar os seus recursos sem ser dominados
pela sua lógica. Tornou-se anticultural a escolha dum estilo de vida, cujos
objectivos possam ser, pelo menos em parte, independentes da técnica, dos seus
custos e do seu poder globalizante e massificador. Com efeito, a técnica tem
tendência a fazer com que nada fique fora da sua lógica férrea, e «o homem que
é o seu protagonista sabe que, em última análise, não se trata de utilidade nem
de bem-estar, mas de domínio; domínio no sentido extremo da palavra».[87]Por
isso, «procura controlar os elementos da natureza e, conjuntamente, os da
existência humana».[88] Reduzem-se
assim a capacidade de decisão, a liberdade mais genuína e o espaço para a
criatividade alternativa dos indivíduos.
109.
O paradigma tecnocrático tende a exercer o seu domínio também sobre a economia
e a política. A economia assume todo o desenvolvimento tecnológico em função do
lucro, sem prestar atenção a eventuais consequências negativas para o ser
humano. A finança sufoca a economia real. Não se aprendeu a lição da crise
financeira mundial e, muito lentamente, se aprende a lição do deterioramento
ambiental. Nalguns círculos, defende-se que a economia actual e a tecnologia
resolverão todos os problemas ambientais, do mesmo modo que se afirma, com
linguagens não académicas, que os problemas da fome e da miséria no mundo serão
resolvidos simplesmente com o crescimento do mercado. Não é uma questão de
teorias económicas, que hoje talvez já ninguém se atreva a defender, mas da sua
instalação no desenvolvimento concreto da economia. Aqueles que não o afirmam
em palavras defendem-no com os factos, quando parece não preocupar-se com o
justo nível da produção, uma melhor distribuição da riqueza, um cuidado
responsável do meio ambiente ou os direitos das gerações futuras. Com os seus
comportamentos, afirmam que é suficiente o objectivo da maximização dos ganhos.
Mas o mercado, por si mesmo, não garante o desenvolvimento humano integral nem
a inclusão social.[89] Entretanto
temos um «superdesenvolvimento dissipador e consumista que contrasta, de modo
inadmissível, com perduráveis situações de miséria desumanizadora»,[90] mas
não se criam, de forma suficientemente rápida, instituições económicas e
programas sociais que permitam aos mais pobres terem regularmente acesso aos
recursos básicos. Não temos suficiente consciência de quais sejam as raízes
mais profundas dos desequilíbrios actuais: estes têm a ver com a orientação, os
fins, o sentido e o contexto social do crescimento tecnológico e económico.
110.
A especialização própria da tecnologia comporta grande dificuldade para se
conseguir um olhar de conjunto. A fragmentação do saber realiza a sua função no
momento de se obter aplicações concretas, mas frequentemente leva a perder o
sentido da totalidade, das relações que existem entre as coisas, do horizonte
alargado: um sentido, que se torna irrelevante. Isto impede de individuar
caminhos adequados para resolver os problemas mais complexos do mundo actual,
sobretudo os do meio ambiente e dos pobres, que não se podem enfrentar a partir
duma única perspectiva nem dum único tipo de interesses. Uma ciência, que
pretenda oferecer soluções para os grandes problemas, deveria necessariamente
ter em conta tudo o que o conhecimento gerou nas outras áreas do saber,
incluindo a filosofia e a ética social. Mas este é actualmente um procedimento
difícil de seguir. Por isso também não se consegue reconhecer verdadeiros
horizontes éticos de referência. A vida passa a ser uma rendição às
circunstâncias condicionadas pela técnica, entendida como o recurso principal
para interpretar a existência. Na realidade concreta que nos interpela,
aparecem vários sintomas que mostram o erro, tais como a degradação ambiental,
a ansiedade, a perda do sentido da vida e da convivência social. Assim se
demonstra uma vez mais que «a realidade é superior à ideia».[91]
111.
A cultura ecológica não se pode reduzir a uma série de respostas urgentes e
parciais para os problemas que vão surgindo à volta da degradação ambiental, do
esgotamento das reservas naturais e da poluição. Deveria ser um olhar
diferente, um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de
vida e uma espiritualidade que oponham resistência ao avanço do paradigma
tecnocrático. Caso contrário, até as melhores iniciativas ecologistas podem
acabar bloqueadas na mesma lógica globalizada. Buscar apenas um remédio técnico
para cada problema ambiental que aparece, é isolar coisas que, na realidade,
estão interligadas e esconder os problemas verdadeiros e mais profundos do
sistema mundial.
112.
Todavia é possível voltar a ampliar o olhar, e a liberdade humana é capaz de
limitar a técnica, orientá-la e colocá-la ao serviço doutro tipo de progresso,
mais saudável, mais humano, mais social, mais integral. De facto verifica-se a
libertação do paradigma tecnocrático nalgumas ocasiões. Por exemplo, quando
comunidades de pequenos produtores optam por sistemas de produção menos
poluentes, defendendo um modelo não-consumista de vida, alegria e convivência.
Ou quando a técnica tem em vista prioritariamente resolver os problemas
concretos dos outros, com o compromisso de os ajudar a viver com mais dignidade
e menor sofrimento. E ainda quando a busca criadora do belo e a sua
contemplação conseguem superar o poder objectivador numa espécie de salvação
que acontece na beleza e na pessoa que a contempla. A humanidade autêntica, que
convida a uma nova síntese, parece habitar no meio da civilização tecnológica
de forma quase imperceptível, como a neblina que filtra por baixo da porta
fechada. Será uma promessa permanente que, apesar de tudo, desbrocha como uma
obstinada resistência daquilo que é autêntico?
113.
Além disso, as pessoas parecem já não acreditar num futuro feliz nem confiam
cegamente num amanhã melhor a partir das condições actuais do mundo e das capacidades
técnicas. Tomam consciência de que o progresso da ciência e da técnica não
equivale ao progresso da humanidade e da história, e vislumbram que os caminhos
fundamentais para um futuro feliz são outros. Apesar disso, também não se
imaginam renunciando às possibilidades que oferece a tecnologia. A humanidade
mudou profundamente, e o avolumar-se de constantes novidades consagra uma
fugacidade que nos arrasta à superfície numa única direcção. Torna-se difícil
parar para recuperarmos a profundidade da vida. Se a arquitectura reflecte o
espírito duma época, as mega-estruturas e as casas em série expressam o
espírito da técnica globalizada, onde a permanente novidade dos produtos se une
a um tédio enfadonho. Não nos resignemos a isto nem renunciemos a perguntar-nos
pelos fins e o sentido de tudo. Caso contrário, apenas legitimaremos o estado
de facto e precisaremos de mais sucedâneos para suportar o vazio.
114.
O que está a acontecer põe-nos perante a urgência de avançar numa corajosa
revolução cultural. A ciência e a tecnologia não são neutrais, mas podem, desde
o início até ao fim dum processo, envolver diferentes intenções e
possibilidades que se podem configurar de várias maneiras. Ninguém quer o
regresso à Idade da Pedra, mas é indispensável abrandar a marcha para olhar a
realidade doutra forma, recolher os avanços positivos e sustentáveis e ao mesmo
tempo recuperar os valores e os grandes objectivos arrasados por um
desenfreamento megalómano.
3.
Crise do antropocentrismo moderno e suas consequências
115.
O antropocentrismo moderno acabou, paradoxalmente, por colocar a razão técnica
acima da realidade, porque este ser humano «já não sente a natureza como norma
válida nem como um refúgio vivente. Sem se pôr qualquer hipótese, vê-a,
objectivamente, como espaço e matéria onde realizar uma obra em que se imerge
completamente, sem se importar com o que possa suceder a ela».[92] Assim
debilita-se o valor intrínseco do mundo. Mas, se o ser humano não redescobre o
seu verdadeiro lugar, compreende-se mal a si mesmo e acaba por contradizer a
sua própria realidade. «Não só a terra foi dada por Deus ao homem, que a deve
usar respeitando a intenção originária de bem, segundo a qual lhe foi entregue;
mas o homem é doado a si mesmo por Deus, devendo por isso respeitar a estrutura
natural e moral de que foi dotado».[93]
116.
Nos tempos modernos, verificou-se um notável excesso antropocêntrico, que hoje,
com outra roupagem, continua a minar toda a referência a algo de comum e
qualquer tentativa de reforçar os laços sociais. Por isso, chegou a hora de
prestar novamente atenção à realidade com os limites que a mesma impõe e que,
por sua vez, constituem a possibilidade dum desenvolvimento humano e social
mais saudável e fecundo. Uma apresentação inadequada da antropologia cristã
acabou por promover uma concepção errada da relação do ser humano com o mundo.
Muitas vezes foi transmitido um sonho prometeico de domínio sobre o mundo, que
provocou a impressão de que o cuidado da natureza fosse actividade de fracos.
Mas a interpretação correcta do conceito de ser humano como senhor do universo
é entendê-lo no sentido de administrador responsável.[94]
117.
A falta de preocupação por medir os danos à natureza e o impacto ambiental das
decisões é apenas o reflexo evidente do desinteresse em reconhecer a mensagem
que a natureza traz inscrita nas suas próprias estruturas. Quando, na própria
realidade, não se reconhece a importância dum pobre, dum embrião humano, duma
pessoa com deficiência – só para dar alguns exemplos –, dificilmente se saberá
escutar os gritos da própria natureza. Tudo está interligado. Se o ser humano
se declara autónomo da realidade e se constitui dominador absoluto,
desmorona-se a própria base da sua existência, porque «em vez de realizar o seu
papel de colaborador de Deus na obra da criação, o homem substitui-se a Deus, e
deste modo acaba por provocar a revolta da natureza».[95]
118.
Esta situação leva-nos a uma esquizofrenia permanente, que se estende da
exaltação tecnocrática, que não reconhece aos outros seres um valor próprio,
até à reacção de negar qualquer valor peculiar ao ser humano. Contudo não se
pode prescindir da humanidade. Não haverá uma nova relação com a natureza, sem
um ser humano novo. Não há ecologia sem uma adequada antropologia. Quando a
pessoa humana é considerada apenas mais um ser entre outros, que provém de
jogos do acaso ou dum determinismo físico, «corre o risco de atenuar-se, nas
consciências, a noção da responsabilidade».[96] Um
antropocentrismo desordenado não deve necessariamente ser substituído por um
«biocentrismo», porque isto implicaria introduzir um novo desequilíbrio que não
só não resolverá os problemas existentes, mas acrescentará outros. Não se pode
exigir do ser humano um compromisso para com o mundo, se ao mesmo tempo não se
reconhecem e valorizam as suas peculiares capacidades de conhecimento, vontade,
liberdade e responsabilidade.
119.
A crítica do antropocentrismo desordenado não deveria deixar em segundo plano
também o valor das relações entre as pessoas. Se a crise ecológica é uma
expressão ou uma manifestação externa da crise ética, cultural e espiritual da
modernidade, não podemos iludir-nos de sanar a nossa relação com a natureza e o
meio ambiente, sem curar todas as relações humanas fundamentais. Quando o
pensamento cristão reivindica, para o ser humano, um valor peculiar acima das
outras criaturas, suscita a valorização de cada pessoa humana e, assim,
estimula o reconhecimento do outro. A abertura a um «tu» capaz de conhecer,
amar e dialogar continua a ser a grande nobreza da pessoa humana. Por isso,
para uma relação adequada com o mundo criado, não é necessário diminuir a
dimensão social do ser humano nem a sua dimensão transcendente, a sua abertura
ao «Tu» divino. Com efeito, não se pode propor uma relação com o ambiente,
prescindindo da relação com as outras pessoas e com Deus. Seria um
individualismo romântico disfarçado de beleza ecológica e um confinamento
asfixiante na imanência.
120.
Uma vez que tudo está relacionado, também não é compatível a defesa da natureza
com a justificação do aborto. Não parece viável um percurso educativo para
acolher os seres frágeis que nos rodeiam e que, às vezes, são molestos e
inoportunos, quando não se dá protecção a um embrião humano ainda que a sua
chegada seja causa de incómodos e dificuldades: «Se se perde a sensibilidade
pessoal e social ao acolhimento duma nova vida, definham também outras formas
de acolhimento úteis à vida social».[97]
121.
Espera-se ainda o desenvolvimento duma nova síntese, que ultrapasse as falsas
dialécticas dos últimos séculos. O próprio cristianismo, mantendo-se fiel à sua
identidade e ao tesouro de verdade que recebeu de Jesus Cristo, não cessa de se
repensar e reformular em diálogo com as novas situações históricas, deixando
desabrochar assim a sua eterna novidade.[98]
O
relativismo prático
122.
Um antropocentrismo desordenado gera um estilo de vida desordenado. Na
exortação apostólica Evangelii gaudium, referi-me ao relativismo prático que
caracteriza a nossa época e que é «ainda mais perigoso que o doutrinal».[99] Quando
o ser humano se coloca no centro, acaba por dar prioridade absoluta aos seus
interesses contingentes, e tudo o mais se torna relativo. Por isso, não deveria
surpreender que, juntamente com a omnipresença do paradigma tecnocrático e a
adoração do poder humano sem limites, se desenvolva nos indivíduos este
relativismo no qual tudo o que não serve os próprios interesses imediatos se
torna irrelevante. Nisto, há uma lógica que permite compreender como se
alimentam mutuamente diferentes atitudes, que provocam ao mesmo tempo a
degradação ambiental e a degradação social.
123.
A cultura do relativismo é a mesma patologia que impele uma pessoa a
aproveitar-se de outra e a tratá-la como mero objecto, obrigando-a a trabalhos
forçados, ou reduzindo-a à escravidão por causa duma dívida. É a mesma lógica
que leva à exploração sexual das crianças, ou ao abandono dos idosos que não
servem os interesses próprios. É também a lógica interna daqueles que dizem:
«Deixemos que as forças invisíveis do mercado regulem a economia, porque os
seus efeitos sobre a sociedade e a natureza são danos inevitáveis». Se não há
verdades objectivas nem princípios estáveis, fora da satisfação das aspirações
próprias e das necessidades imediatas, que limites pode haver para o tráfico de
seres humanos, a criminalidade organizada, o narcotráfico, o comércio de
diamantes ensanguentados e de peles de animais em vias de extinção? Não é a
mesma lógica relativista a que justifica a compra de órgãos dos pobres com a
finalidade de os vender ou utilizar para experimentação, ou o descarte de
crianças porque não correspondem ao desejo de seus pais? É a mesma lógica do
«usa e joga fora» que produz tantos resíduos, só pelo desejo desordenado de
consumir mais do que realmente se tem necessidade. Portanto, não podemos pensar
que os programas políticos ou a força da lei sejam suficientes para evitar os
comportamentos que afectam o meio ambiente, porque, quando é a cultura que se
corrompe deixando de reconhecer qualquer verdade objectiva ou quaisquer
princípios universalmente válidos, as leis só se poderão entender como
imposições arbitrárias e obstáculos a evitar.
A
necessidade de defender o trabalho
124.
Em qualquer abordagem de ecologia integral que não exclua o ser humano, é
indispensável incluir o valor do trabalho, tão sabiamente desenvolvido por
São João Paulo II na sua encíclica Laborem excercens. Recordemos que, segundo a narração
bíblica da criação, Deus colocou o ser humano no jardim recém-criado (cf. Gn2,
15), não só para cuidar do existente (guardar), mas também para trabalhar nele
a fim de que produzisse frutos (cultivar). Assim, os operários e os artesãos
«asseguram uma criação perpétua» (Sir 38, 34). Na realidade, a
intervenção humana que favorece o desenvolvimento prudente da criação é a forma
mais adequada de cuidar dela, porque implica colocar-se como instrumento de
Deus para ajudar a fazer desabrochar as potencialidades que Ele mesmo inseriu
nas coisas: «O Senhor produziu da terra os medicamentos; e o homem sensato não
os desprezará» (Sir38, 4).
125.
Se procurarmos pensar quais possam ser as relações adequadas do ser humano com
o mundo que o rodeia, surge a necessidade duma concepção correcta do trabalho,
porque, falando da relação do ser humano com as coisas, impõe-se-nos a questão
relativa ao sentido e finalidade da acção humana sobre a realidade. Não falamos
apenas do trabalho manual ou do trabalho da terra, mas de qualquer actividade
que implique alguma transformação do existente, desde a elaboração dum balanço
social até ao projecto dum progresso tecnológico. Qualquer forma de trabalho
pressupõe uma concepção sobre a relação que o ser humano pode ou deve
estabelecer com o outro diverso de si mesmo. A espiritualidade cristã, a par da
admiração contemplativa das criaturas que encontramos em São Francisco de
Assis, desenvolveu também uma rica e sadia compreensão do trabalho, como
podemos encontrar, por exemplo, na vida do Beato Carlos de Foucauld e seus
discípulos.
126.
Algo se pode recolher também da longa tradição monástica. Nos primórdios, esta
favorecia de certo modo a fuga do mundo, procurando afastar-se da decadência
urbana. Por isso, os monges buscavam o deserto, convencidos de que fosse o
lugar adequado para reconhecer a presença de Deus. Mais tarde, São Bento de
Núrsia quis que os seus monges vivessem em comunidade, unindo oração e estudo
com o trabalho manual («Ora et labora»). Esta introdução do trabalho
manual impregnada de sentido espiritual revelou-se revolucionária. Aprendeu-se
a buscar o amadurecimento e a santificação na compenetração entre o
recolhimento e o trabalho. Esta maneira de viver o trabalho torna-nos mais
capazes de ter cuidado e respeito pelo meio ambiente, impregnando de sadia
sobriedade a nossa relação com o mundo.
127.
Afirmamos que «o homem é o protagonista, o centro e o fim de toda a vida
económico-social».[100] Apesar
disso, quando no ser humano se deteriora a capacidade de contemplar e
respeitar, criam-se as condições para se desfigurar o sentido do trabalho.[101] Convém
recordar sempre que o ser humano é «capaz de, por si próprio, ser o agente
responsável do seu bem-estar material, progresso moral e desenvolvimento
espiritual».[102] O
trabalho deveria ser o âmbito deste multiforme desenvolvimento pessoal, onde
estão em jogo muitas dimensões da vida: a criatividade, a projectação do
futuro, o desenvolvimento das capacidades, a exercitação dos valores, a
comunicação com os outros, uma atitude de adoração. Por isso, a realidade
social do munda actual exige que, acima dos limitados interesses das empresas e
duma discutível racionalidade económica, «se continue a perseguir como prioritário
o objectivo do acesso ao trabalho para todos».[103]
128.
Somos chamados ao trabalho desde a nossa criação. Não se deve procurar que o
progresso tecnológico substitua cada vez mais o trabalho humano: procedendo
assim, a humanidade prejudicar-se-ia a si mesma. O trabalho é uma necessidade,
faz parte do sentido da vida nesta terra, é caminho de maturação, desenvolvimento
humano e realização pessoal. Neste sentido, ajudar os pobres com o dinheiro
deve ser sempre um remédio provisório para enfrentar emergências. O verdadeiro
objectivo deveria ser sempre consentir-lhes uma vida digna através do trabalho.
Mas a orientação da economia favoreceu um tipo de progresso tecnológico cuja
finalidade é reduzir os custos de produção com base na diminuição dos postos de
trabalho, que são substituídos por máquinas. É mais um exemplo de como a acção
do homem se pode voltar contra si mesmo. A diminuição dos postos de trabalho
«tem também um impacto negativo no plano económico com a progressiva corrosão
do “capital social”, isto é, daquele conjunto de relações de confiança, de
credibilidade, de respeito das regras, indispensável em qualquer convivência
civil».[104] Em
suma, «os custos humanos são sempre também custos económicos, e as
disfunções económicas acarretam sempre também custos humanos».[105]Renunciar
a investir nas pessoas para se obter maior receita imediata é um péssimo
negócio para a sociedade.
129.
Para se conseguir continuar a dar emprego, é indispensável promover uma
economia que favoreça a diversificação produtiva e a criatividade empresarial.
Por exemplo, há uma grande variedade de sistemas alimentares rurais de pequena
escala que continuam a alimentar a maior parte da população mundial, utilizando
uma porção reduzida de terreno e de água e produzindo menos resíduos, quer em
pequenas parcelas agrícolas e hortas, quer na caça e recolha de produtos
silvestres, quer na pesca artesanal. As economias de larga escala,
especialmente no sector agrícola, acabam por forçar os pequenos agricultores a
vender as suas terras ou a abandonar as suas culturas tradicionais. As
tentativas feitas por alguns deles no sentido de desenvolverem outras formas de
produção, mais diversificadas, resultam inúteis por causa da dificuldade de ter
acesso aos mercados regionais e globais, ou porque a infra-estrutura de venda e
transporte está ao serviço das grandes empresas. As autoridades têm o direito e
a responsabilidade de adoptar medidas de apoio claro e firme aos pequenos
produtores e à diversificação da produção. Às vezes, para que haja uma
liberdade económica da qual todos realmente beneficiem, pode ser necessário pôr
limites àqueles que detêm maiores recursos e poder financeiro. A simples
proclamação da liberdade económica, enquanto as condições reaisimpedem
que muitos possam efectivamente ter acesso a ela e, ao mesmo tempo, se reduz o
acesso ao trabalho, torna-se um discurso contraditório que desonra a política.
A actividade empresarial, que é uma nobre vocação orientada para produzir
riqueza e melhorar o mundo para todos, pode ser uma maneira muito fecunda de
promover a região onde instala os seus empreendimentos, sobretudo se pensa que
a criação de postos de trabalho é parte imprescindível do seu serviço ao bem
comum.
A
inovação biológica a partir da pesquisa
130.
Na visão filosófica e teológica do ser humano e da criação que procurei propor,
aparece claro que a pessoa humana, com a peculiaridade da sua razão e da sua
sabedoria, não é um factor externo que deva ser totalmente excluído. No
entanto, embora o ser humano possa intervir no mundo vegetal e animal e fazer
uso dele quando é necessário para a sua vida, o Catecismo ensina que as experimentações sobre os
animais só são legítimas «desde que não ultrapassem os limites do razoável e
contribuam para curar ou poupar vidas humanas».[106] Recorda,
com firmeza, que o poder humano tem limites e que «é contrário à dignidade humana
fazer sofrer inutilmente os animais e dispor indiscriminadamente das suas
vidas».[107] Todo
o uso e experimentação «exige um respeito religioso pela integridade da
criação».[108]
131.
Quero recolher aqui a posição equilibrada de São João Paulo II, pondo em destaque os benefícios dos
progressos científicos e tecnológicos, que «manifestam quanto é nobre a vocação
do homem para participar de modo responsável na acção criadora de Deus», mas ao
mesmo tempo recordava que «toda e qualquer intervenção numa área determinada do
ecossistema não pode prescindir da consideração das suas consequências noutras
áreas».[109] Afirmava
que a Igreja aprecia a contribuição «do estudo e das aplicações da biologia
molecular, completada por outras disciplinas como a genética e a sua aplicação
tecnológica na agricultura e na indústria»,[110] embora
dissesse também que isto não deve levar a uma «indiscriminada manipulação
genética»[111] que
ignore os efeitos negativos destas intervenções. Não é possível frenar a
criatividade humana. Se não se pode proibir a um artista que exprima a sua
capacidade criativa, também não se pode obstaculizar quem possui dons especiais
para o progresso científico e tecnológico, cujas capacidades foram dadas por
Deus para o serviço dos outros. Ao mesmo tempo, não se pode deixar de
considerar os objectivos, os efeitos, o contexto e os limites éticos de tal
actividade humana que é uma forma de poder com grandes riscos.
132.
Neste quadro, deveria situar-se toda e qualquer reflexão acerca da intervenção
humana sobre o mundo vegetal e animal que implique hoje mutações genéticas
geradas pela biotecnologia, a fim de aproveitar as possibilidades presentes na
realidade material. O respeito da fé pela razão pede para se prestar atenção
àquilo que a própria ciência biológica, desenvolvida independentemente dos
interesses económicos, possa ensinar a propósito das estruturas biológicas e
das suas possibilidades e mutações. Em todo o caso, é legítima uma intervenção
que actue sobre a natureza «para a ajudar a desenvolver-se na sua própria
linha, a da criação, querida por Deus».[112]
133.
É difícil emitir um juízo geral sobre o desenvolvimento de organismos
modificados geneticamente (OMG), vegetais ou animais, para fins medicinais ou
agro-pecuários, porque podem ser muito diferentes entre si e requerer distintas
considerações. Além disso, os riscos nem sempre se devem atribuir à própria
técnica, mas à sua aplicação inadequada ou excessiva. Na realidade, muitas
vezes as mutações genéticas foram e continuam a ser produzidas pela própria
natureza. E mesmo as provocadas pelo ser humano não são um fenómeno moderno. A
domesticação de animais, o cruzamento de espécies e outras práticas antigas e
universalmente seguidas podem incluir-se nestas considerações. É oportuno
recordar que o início dos progressos científicos sobre cereais transgénicos foi
a observação de bactérias que, de forma natural e espontânea, produziam uma
modificação no genoma dum vegetal. Mas, na natureza, estes processos têm um
ritmo lento, que não se compara com a velocidade imposta pelos avanços
tecnológicos actuais, mesmo quando estes avanços se baseiam num desenvolvimento
científico de vários séculos.
134.
Embora não disponhamos de provas definitivas acerca do dano que poderiam causar
os cereais transgénicos aos seres humanos e apesar de, nalgumas regiões, a sua
utilização ter produzido um crescimento económico que contribuiu para resolver
determinados problemas, há dificuldades importantes que não devem ser
minimizadas. Em muitos lugares, na sequência da introdução destas culturas,
constata-se uma concentração de terras produtivas nas mãos de poucos, devido ao
«progressivo desaparecimento de pequenos produtores, que, em consequência da
perda das terras cultivadas, se viram obrigados a retirar-se da produção
directa».[113] Os
mais frágeis deles tornam-se trabalhadores precários, e muitos assalariados
agrícolas acabam por emigrar para miseráveis aglomerados das cidades. A expansão
destas culturas destrói a complexa trama dos ecossistemas, diminui a
diversidade na produção e afecta o presente ou o futuro das economias
regionais. Em vários países, nota-se uma tendência para o desenvolvimento de
oligopólios na produção de sementes e outros produtos necessários para o
cultivo, e a dependência agrava-se quando se pensa na produção de sementes
estéreis que acabam por obrigar os agricultores a comprá-las às empresas
produtoras.
135.
Sem dúvida, há necessidade duma atenção constante, que tenha em consideração
todos os aspectos éticos implicados. Para isso, é preciso assegurar um debate
científico e social que seja responsável e amplo, capaz de considerar toda a
informação disponível e chamar as coisas pelo seu nome. Às vezes não se coloca sobre
a mesa a informação completa, mas é seleccionada de acordo com os próprios
interesses, sejam eles políticos, económicos ou ideológicos. Isto torna difícil
elaborar um juízo equilibrado e prudente sobre as várias questões, tendo
presente todas as variáveis em jogo. É necessário dispor de espaços de debate,
onde todos aqueles que poderiam de algum modo ver-se, directa ou
indirectamente, afectados (agricultores, consumidores, autoridades, cientistas,
produtores de sementes, populações vizinhas dos campos tratados e outros)
tenham possibilidade de expor as suas problemáticas ou ter acesso a uma
informação ampla e fidedigna para adoptar decisões tendentes ao bem comum
presente e futuro. A questão dos OMG é uma questão de carácter complexo, que
requer ser abordada com um olhar abrangente de todos os aspectos; isto exigiria
pelo menos um maior esforço para financiar distintas linhas de pesquisa
autónoma e interdisciplinar que possam trazer nova luz.
136.
Além disso, é preocupante constatar que alguns movimentos ecologistas defendem
a integridade do meio ambiente e, com razão, reclamam a imposição de
determinados limites à pesquisa científica, mas não aplicam estes mesmos
princípios à vida humana. Muitas vezes justifica-se que se ultrapassem todos os
limites, quando se faz experiências com embriões humanos vivos. Esquece-se que
o valor inalienável do ser humano é independente do seu grau de
desenvolvimento. Aliás, quando a técnica ignora os grandes princípios éticos,
acaba por considerar legítima qualquer prática. Como vimos neste capítulo, a
técnica separada da ética dificilmente será capaz de autolimitar o seu poder.
CAPÍTULO IV
UMA ECOLOGIA INTEGRAL
137.
Dado que tudo está intimamente relacionado e que os problemas actuais requerem
um olhar que tenha em conta todos os aspectos da crise mundial, proponho que
nos detenhamos agora a reflectir sobre os diferentes elementos duma ecologia
integral, que inclua claramente as dimensões humanas e sociais.
1.
Ecologia ambiental, económica e social
138.
A ecologia estuda as relações entre os organismos vivos e o meio ambiente onde
se desenvolvem. E isto exige sentar-se a pensar e discutir acerca das condições
de vida e de sobrevivência duma sociedade, com a honestidade de pôr em questão
modelos de desenvolvimento, produção e consumo. Nunca é demais insistir que
tudo está interligado. O tempo e o espaço não são independentes entre si; nem
os próprios átomos ou as partículas subatómicas se podem considerar
separadamente. Assim como os vários componentes do planeta – físicos, químicos
e biológicos – estão relacionados entre si, assim também as espécies vivas
formam uma trama que nunca acabaremos de individuar e compreender. Boa parte da
nossa informação genética é partilhada com muitos seres vivos. Por isso, os
conhecimentos fragmentários e isolados podem tornar-se uma forma de ignorância,
quando resistem a integrar-se numa visão mais ampla da realidade.
139.
Quando falamos de «meio ambiente», fazemos referência também a uma particular
relação: a relação entre a natureza e a sociedade que a habita. Isto impede-nos
de considerar a natureza como algo separado de nós ou como uma mera moldura da
nossa vida. Estamos incluídos nela, somos parte dela e compenetramo-nos. As
razões, pelas quais um lugar se contamina, exigem uma análise do funcionamento
da sociedade, da sua economia, do seu comportamento, das suas maneiras de
entender a realidade. Dada a amplitude das mudanças, já não é possível
encontrar uma resposta específica e independente para cada parte do problema. É
fundamental buscar soluções integrais que considerem as interacções dos
sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais. Não há duas crises
separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise
sócio-ambiental. As directrizes para a solução requerem uma abordagem integral
para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente,
cuidar da natureza.
140.
Devido à quantidade e variedade de elementos a ter em conta na hora de
determinar o impacto ambiental dum empreendimento concreto, torna-se
indispensável dar aos pesquisadores um papel preponderante e facilitar a sua
interacção com uma ampla liberdade académica. Esta pesquisa constante deveria
permitir reconhecer também como as diferentes criaturas se relacionam, formando
aquelas unidades maiores que hoje chamamos «ecossistemas». Temo-los em conta
não só para determinar qual é o seu uso razoável, mas também porque possuem um
valor intrínseco, independente de tal uso. Assim como cada organismo é bom e
admirável em si mesmo pelo facto de ser uma criatura de Deus, o mesmo se pode
dizer do conjunto harmónico de organismos num determinado espaço, funcionando
como um sistema. Embora não tenhamos consciência disso, dependemos desse
conjunto para a nossa própria existência. Convém recordar que os ecossistemas
intervêm na retenção do anidrido carbónico, na purificação da água, na
contraposição a doenças e pragas, na composição do solo, na decomposição dos
resíduos, e muitíssimos outros serviços que esquecemos ou ignoramos. Quando se
dão conta disto, muitas pessoas voltam a tomar consciência de que vivemos e
agimos a partir duma realidade que nos foi previamente dada, que é anterior às
nossas capacidades e à nossa existência. Por isso, quando se fala de «uso
sustentável», é preciso incluir sempre uma consideração sobre a capacidade
regenerativa de cada ecossistema nos seus diversos sectores e aspectos.
141.
Além disso, o crescimento económico tende a gerar automatismos e a
homogeneizar, a fim de simplificar os processos e reduzir os custos. Por isso,
é necessária uma ecologia económica, capaz de induzir a considerar a realidade
de forma mais ampla. Com efeito, «a protecção do meio ambiente deverá
constituir parte integrante do processo de desenvolvimento e não poderá ser
considerada isoladamente».[114] Mas,
ao mesmo tempo, torna-se actual a necessidade imperiosa do humanismo, que faz
apelo aos distintos saberes, incluindo o económico, para uma visão mais
integral e integradora. Hoje, a análise dos problemas ambientais é inseparável
da análise dos contextos humanos, familiares, laborais, urbanos, e da relação
de cada pessoa consigo mesma, que gera um modo específico de se relacionar com
os outros e com o meio ambiente. Há uma interacção entre os ecossistemas e
entre os diferentes mundos de referência social e, assim, se demonstra mais uma
vez que «o todo é superior à parte».[115]
142.
Se tudo está relacionado, também o estado de saúde das instituições duma
sociedade tem consequências no ambiente e na qualidade de vida humana: «toda a
lesão da solidariedade e da amizade cívica provoca danos ambientais».[116] Neste
sentido, a ecologia social é necessariamente institucional e progressivamente
alcança as diferentes dimensões, que vão desde o grupo social primário, a
família, até à vida internacional, passando pela comunidade local e a nação.
Dentro de cada um dos níveis sociais e entre eles, desenvolvem-se as
instituições que regulam as relações humanas. Tudo o que as danifica comporta
efeitos nocivos, como a perda da liberdade, a injustiça e a violência. Vários
países são governados por um sistema institucional precário, à custa do
sofrimento do povo e para benefício daqueles que lucram com este estado de
coisas. Tanto dentro da administração do Estado, como nas diferentes expressões
da sociedade civil, ou nas relações dos habitantes entre si, registam-se, com
demasiada frequência, comportamentos ilegais. As leis podem estar redigidas de
forma correcta, mas muitas vezes permanecem letra morta. Poder-se-á, assim,
esperar que a legislação e as normativas relativas ao meio ambiente sejam
realmente eficazes? Sabemos, por exemplo, que países dotados duma legislação
clara sobre a protecção das florestas continuam a ser testemunhas mudas da sua
frequente violação. Além disso, o que acontece numa região influi, directa ou
indirectamente, nas outras regiões. Assim, por exemplo, o consumo de drogas nas
sociedades opulentas provoca uma constante ou crescente procura de produtos que
provêm de regiões empobrecidas, onde se corrompem comportamentos, se destroem
vidas e se acaba por degradar o meio ambiente.
2.
Ecologia cultural
143.
A par do património natural, encontra-se igualmente ameaçado um património
histórico, artístico e cultural. Faz parte da identidade comum de um lugar,
servindo de base para construir uma cidade habitável. Não se trata de destruir
e criar novas cidades hipoteticamente mais ecológicas, onde nem sempre resulta
desejável viver. É preciso integrar a história, a cultura e a arquitectura dum
lugar, salvaguardando a sua identidade original. Por isso, a ecologia envolve
também o cuidado das riquezas culturais da humanidade, no seu sentido mais
amplo. Mais directamente, pede que se preste atenção às culturas locais, quando
se analisam questões relacionadas com o meio ambiente, fazendo dialogar a
linguagem técnico-científica com a linguagem popular. É a cultura – entendida
não só como os monumentos do passado, mas especialmente no seu sentido vivo,
dinâmico e participativo – que não se pode excluir na hora de repensar a
relação do ser humano com o meio ambiente.
144.
A visão consumista do ser humano, incentivada pelos mecanismos da economia
globalizada actual, tende a homogeneizar as culturas e a debilitar a imensa
variedade cultural, que é um tesouro da humanidade. Por isso, pretender
resolver todas as dificuldades através de normativas uniformes ou por
intervenções técnicas, leva a negligenciar a complexidade das problemáticas
locais, que requerem a participação activa dos habitantes. Os novos processos
em gestação nem sempre se podem integrar dentro de modelos estabelecidos do
exterior, mas hão-de ser provenientes da própria cultura local. Assim como a
vida e o mundo são dinâmicos, assim também o cuidado do mundo deve ser flexível
e dinâmico. As soluções meramente técnicas correm o risco de tomar em
consideração sintomas que não correspondem às problemáticas mais profundas. É
preciso assumir a perspectiva dos direitos dos povos e das culturas, dando
assim provas de compreender que o desenvolvimento dum grupo social supõe um
processo histórico no âmbito dum contexto cultural e requer constantemente o
protagonismo dos actores sociais locais a partir da sua própria cultura.
Nem mesmo a noção da qualidade de vida se pode impor, mas deve ser entendida
dentro do mundo de símbolos e hábitos próprios de cada grupo humano.
145.
Muitas formas de intensa exploração e degradação do meio ambiente podem esgotar
não só os meios locais de subsistência, mas também os recursos sociais que
consentiram um modo de viver que sustentou, durante longo tempo, uma identidade
cultural e um sentido da existência e da convivência social. O desaparecimento
duma cultura pode ser tanto ou mais grave do que o desaparecimento duma espécie
animal ou vegetal. A imposição dum estilo hegemónico de vida ligado a um modo
de produção pode ser tão nocivo como a alteração dos ecossistemas.
146.
Neste sentido, é indispensável prestar uma atenção especial às comunidades
aborígenes com as suas tradições culturais. Não são apenas uma minoria entre
outras, mas devem tornar-se os principais interlocutores, especialmente quando
se avança com grandes projectos que afectam os seus espaços. Com efeito, para
eles, a terra não é um bem económico, mas dom gratuito de Deus e dos
antepassados que nela descansam, um espaço sagrado com o qual precisam de
interagir para manter a sua identidade e os seus valores. Eles, quando
permanecem nos seus territórios, são quem melhor os cuida. Em várias partes do
mundo, porém, são objecto de pressões para que abandonem suas terras e as
deixem livres para projectos extractivos e agro-pecuários que não prestam
atenção à degradação da natureza e da cultura.
3.
Ecologia da vida quotidiana
147.
Para se poder falar de autêntico progresso, será preciso verificar que se
produza uma melhoria global na qualidade de vida humana; isto implica analisar
o espaço onde as pessoas transcorrem a sua existência. Os ambientes onde
vivemos influem sobre a nossa maneira de ver a vida, sentir e agir. Ao mesmo
tempo, no nosso quarto, na nossa casa, no nosso lugar de trabalho e no nosso
bairro, usamos o ambiente para exprimir a nossa identidade. Esforçamo-nos por
nos adaptar ao ambiente e, quando este aparece desordenado, caótico ou cheio de
poluição visiva e acústica, o excesso de estímulos põe à prova as nossas
tentativas de desenvolver uma identidade integrada e feliz.
148.
Admirável é a criatividade e generosidade de pessoas e grupos que são capazes
de dar a volta às limitações do ambiente, modificando os efeitos adversos dos
condicionalismos e aprendendo a orientar a sua existência no meio da desordem e
precariedade. Por exemplo, nalguns lugares onde as fachadas dos edifícios estão
muito deterioradas, há pessoas que cuidam com muita dignidade o interior das
suas habitações, ou que se sentem bem pela cordialidade e amizade das pessoas.
A vida social positiva e benfazeja dos habitantes enche de luz um ambiente à
primeira vista inabitável. É louvável a ecologia humana que os pobres conseguem
desenvolver, no meio de tantas limitações. A sensação de sufocamento, produzida
pelos aglomerados residenciais e pelos espaços com alta densidade populacional,
é contrastada se se desenvolvem calorosas relações humanas de vizinhança, se se
criam comunidades, se as limitações ambientais são compensadas na interioridade
de cada pessoa que se sente inserida numa rede de comunhão e pertença. Deste
modo, qualquer lugar deixa de ser um inferno e torna-se o contexto duma vida
digna.
149.
Inversamente está provado que a penúria extrema vivida nalguns ambientes
privados de harmonia, magnanimidade e possibilidade de integração, facilita o
aparecimento de comportamentos desumanos e a manipulação das pessoas por
organizações criminosas. Para os habitantes de bairros periféricos muito
precários, a experiência diária de passar da superlotação ao anonimato social,
que se vive nas grandes cidades, pode provocar uma sensação de desenraizamento
que favorece comportamentos anti-sociais e violência. Todavia tenho a peito
reiterar que o amor é mais forte. Muitas pessoas, nestas condições, são capazes
de tecer laços de pertença e convivência que transformam a superlotação numa
experiência comunitária, onde se derrubam os muros do eu e superam as barreiras
do egoísmo. Esta experiência de salvação comunitária é o que muitas vezes
suscita reacções criativas para melhorar um edifício ou um bairro.[117]
150.
Dada a relação entre os espaços urbanizados e o comportamento humano, aqueles
que projectam edifícios, bairros, espaços públicos e cidades precisam da
contribuição dos vários saberes que permitem compreender os processos, o
simbolismo e os comportamentos das pessoas. Não é suficiente a busca da beleza
no projecto, porque tem ainda mais valor servir outro tipo de beleza: a
qualidade de vida das pessoas, a sua harmonia com o ambiente, o encontro e
ajuda mútua. Por isso também, é tão importante que o ponto de vista dos
habitantes do lugar contribua sempre para a análise da planificação urbanista.
151.
É preciso cuidar dos espaços comuns, dos marcos visuais e das estruturas urbanas
que melhoram o nosso sentido de pertença, a nossa sensação de enraizamento, o
nosso sentimento de «estar em casa» dentro da cidade que nos envolve e une. É
importante que as diferentes partes duma cidade estejam bem integradas e que os
habitantes possam ter uma visão de conjunto em vez de se encerrarem num bairro,
renunciando a viver a cidade inteira como um espaço próprio partilhado com os
outros. Toda a intervenção na paisagem urbana ou rural deveria considerar que
os diferentes elementos do lugar formam um todo, sentido pelos habitantes como
um contexto coerente com a sua riqueza de significados. Assim, os outros deixam
de ser estranhos e podemos senti-los como parte de um «nós» que construímos
juntos. Pela mesma razão, tanto no meio urbano como no rural, convém preservar
alguns espaços onde se evitem intervenções humanas que os alterem
constantemente.
152.
A falta de habitação é grave em muitas partes do mundo, tanto nas áreas rurais
como nas grandes cidades, nomeadamente porque os orçamentos estatais em geral
cobrem apenas uma pequena parte da procura. E não só os pobres, mas uma grande
parte da sociedade encontra sérias dificuldades para ter uma casa própria. A
propriedade da casa tem muita importância para a dignidade das pessoas e o
desenvolvimento das famílias. Trata-se duma questão central da ecologia humana.
Se num lugar concreto já se desenvolveram aglomerados caóticos de casas
precárias, trata-se primariamente de urbanizar estes bairros, não de erradicar
e expulsar os habitantes. Mas, quando os pobres vivem em subúrbios poluídos ou
aglomerados perigosos, «no caso de ter de se proceder à sua deslocação, para
não acrescentar mais sofrimento ao que já padecem, é necessário fornecer-lhes
uma adequada e prévia informação, oferecer-lhes alternativas de alojamentos
dignos e envolver directamente os interessados».[118]Ao
mesmo tempo, a criatividade deveria levar à integração dos bairros precários
numa cidade acolhedora: «Como são belas as cidades que superam a desconfiança
doentia e integram os que são diferentes, fazendo desta integração um novo
factor de progresso! Como são encantadoras as cidades que, já no seu projecto
arquitectónico, estão cheias de espaços que unem, relacionam, favorecem o
reconhecimento do outro!»[119]
153.
Nas cidades, a qualidade de vida está largamente relacionada com os
transportes, que muitas vezes são causa de grandes tribulações para os
habitantes. Nelas, circulam muitos carros utilizados por uma ou duas pessoas,
pelo que o tráfico torna-se intenso, eleva-se o nível de poluição, consomem-se
enormes quantidades de energia não-renovável e torna-se necessário a construção
de mais estradas e parques de estacionamento que prejudicam o tecido urbano.
Muitos especialistas estão de acordo sobre a necessidade de dar prioridade ao
transporte público. Mas é difícil que algumas medidas consideradas necessárias
sejam pacificamente acolhidas pela sociedade, sem uma melhoria substancial do
referido transporte, que, em muitas cidades, comporta um tratamento indigno das
pessoas devido à superlotação, ao desconforto, ou à reduzida frequência dos
serviços e à insegurança.
154.
O reconhecimento da dignidade peculiar do ser humano contrasta frequentemente
com a vida caótica que têm de fazer as pessoas nas nossas cidades. Mas isto não
deveria levar a esquecer o estado de abandono e desleixo que sofrem também
alguns habitantes das áreas rurais, onde não chegam os serviços essenciais e há
trabalhadores reduzidos a situações de escravidão, sem direitos nem expectativas
duma vida mais dignificante.
155.
A ecologia humana implica também algo de muito profundo que é indispensável
para se poder criar um ambiente mais dignificante: a relação necessária da vida
do ser humano com a lei moral inscrita na sua própria natureza. Bento XVI dizia que existe uma «ecologia
do homem», porque «também o homem possui uma natureza, que deve respeitar e não
pode manipular como lhe apetece».[120] Nesta
linha, é preciso reconhecer que o nosso corpo nos põe em relação directa com o
meio ambiente e com os outros seres vivos. A aceitação do próprio corpo como
dom de Deus é necessária para acolher e aceitar o mundo inteiro como dom do Pai
e casa comum; pelo contrário, uma lógica de domínio sobre o próprio corpo
transforma-se numa lógica, por vezes subtil, de domínio sobre a criação.
Aprender a aceitar o próprio corpo, a cuidar dele e a respeitar os seus
significados é essencial para uma verdadeira ecologia humana. Também é
necessário ter apreço pelo próprio corpo na sua feminilidade ou masculinidade,
para se poder reconhecer a si mesmo no encontro com o outro que é diferente.
Assim, é possível aceitar com alegria o dom específico do outro ou da outra,
obra de Deus criador, e enriquecer-se mutuamente. Portanto, não é salutar um
comportamento que pretenda «cancelar a diferença sexual, porque já não sabe
confrontar-se com ela».[121]
4.
O princípio do bem comum
156.
A ecologia humana é inseparável da noção de bem comum, princípio este que
desempenha um papel central e unificador na ética social. É «o conjunto das
condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro,
alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição».[122]
157.
O bem comum pressupõe o respeito pela pessoa humana enquanto tal, com direitos
fundamentais e inalienáveis orientados para o seu desenvolvimento integral.
Exige também os dispositivos de bem-estar e segurança social e o
desenvolvimento dos vários grupos intermédios, aplicando o princípio da
subsidiariedade. Entre tais grupos, destaca-se de forma especial a família
enquanto célula basilar da sociedade. Por fim, o bem comum requer a paz social,
isto é, a estabilidade e a segurança de uma certa ordem, que não se realiza sem
uma atenção particular à justiça distributiva, cuja violação gera sempre violência.
Toda a sociedade – e, nela, especialmente o Estado – tem obrigação de defender
e promover o bem comum.
158.
Nas condições actuais da sociedade mundial, onde há tantas desigualdades e são
cada vez mais numerosas as pessoas descartadas, privadas dos direitos humanos
fundamentais, o princípio do bem comum torna-se imediatamente, como
consequência lógica e inevitável, um apelo à solidariedade e uma opção
preferencial pelos mais pobres. Esta opção implica tirar as consequências do
destino comum dos bens da terra, mas – como procurei mostrar na exortação
apostólica Evangelii gaudium [123] – exige acima de tudo contemplar
a imensa dignidade do pobre à luz das mais profundas convicções de fé. Basta
observar a realidade para compreender que, hoje, esta opção é uma exigência
ética fundamental para a efectiva realização do bem comum.
5.
A justiça intergeneracional
159.
A noção de bem comum engloba também as gerações futuras. As crises económicas
internacionais mostraram, de forma atroz, os efeitos nocivos que traz consigo o
desconhecimento de um destino comum, do qual não podem ser excluídos aqueles
que virão depois de nós. Já não se pode falar de desenvolvimento sustentável
sem uma solidariedade intergeneracional. Quando pensamos na situação em que se
deixa o planeta às gerações futuras, entramos noutra lógica: a do dom gratuito,
que recebemos e comunicamos. Se a terra nos é dada, não podemos pensar apenas a
partir dum critério utilitarista de eficiência e produtividade para lucro
individual. Não estamos a falar duma atitude opcional, mas duma questão
essencial de justiça, pois a terra que recebemos pertence também àqueles que
hão-de vir. Os bispos de Portugal exortaram a assumir este dever de justiça: «O
ambiente situa-se na lógica da recepção. É um empréstimo que cada geração
recebe e deve transmitir à geração seguinte».[124]Uma
ecologia integral possui esta perspectiva ampla.
160.
Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão
a crescer? Esta pergunta não toca apenas o meio ambiente de maneira isolada,
porque não se pode pôr a questão de forma fragmentária. Quando nos interrogamos
acerca do mundo que queremos deixar, referimo-nos sobretudo à sua orientação
geral, ao seu sentido, aos seus valores. Se não pulsa nelas esta pergunta de
fundo, não creio que as nossas preocupações ecológicas possam alcançar efeitos
importantes. Mas, se esta pergunta é posta com coragem, leva-nos
inexoravelmente a outras questões muito directas: Com que finalidade passamos
por este mundo? Para que viemos a esta vida? Para que trabalhamos e lutamos?
Que necessidade tem de nós esta terra? Por isso, já não basta dizer que devemos
preocupar-nos com as gerações futuras; exige-se ter consciência de que é a
nossa própria dignidade que está em jogo. Somos nós os primeiros interessados
em deixar um planeta habitável para a humanidade que nos vai suceder. Trata-se
de um drama para nós mesmos, porque isto chama em causa o significado da nossa
passagem por esta terra.
161.
As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia. Às
próximas gerações, poderíamos deixar demasiadas ruínas, desertos e lixo. O
ritmo de consumo, desperdício e alteração do meio ambiente superou de tal
maneira as possibilidades do planeta, que o estilo de vida actual – por ser
insustentável – só pode desembocar em catástrofes, como aliás já está a
acontecer periodicamente em várias regiões. A atenuação dos efeitos do
desequilíbrio actual depende do que fizermos agora, sobretudo se pensarmos na
responsabilidade que nos atribuirão aqueles que deverão suportar as piores consequências.
162.
A dificuldade em levar a sério este desafio tem a ver com uma deterioração
ética e cultural, que acompanha a deterioração ecológica. O homem e a mulher
deste mundo pós-moderno correm o risco permanente de se tornar profundamente
individualistas, e muitos problemas sociais de hoje estão relacionados com a
busca egoísta duma satisfação imediata, com as crises dos laços familiares e
sociais, com as dificuldades em reconhecer o outro. Muitas vezes há um consumo
excessivo e míope dos pais que prejudica os próprios filhos, que sentem cada
vez mais dificuldade em comprar casa própria e fundar uma família. Além disso
esta falta de capacidade para pensar seriamente nas futuras gerações está
ligada com a nossa incapacidade de alargar o horizonte das nossas preocupações
e pensar naqueles que permanecem excluídos do desenvolvimento. Não percamos
tempo a imaginar os pobres do futuro, é suficiente que recordemos os pobres de
hoje, que poucos anos têm para viver nesta terra e não podem continuar a esperar.
Por isso, «para além de uma leal solidariedade entre as gerações, há que
reafirmar a urgente necessidade moral de uma renovada solidariedade entre os
indivíduos da mesma geração».[125]
CAPÍTULO V
ALGUMAS LINHAS DE ORIENTAÇÃO E ACÇÃO
163.
Procurei examinar a situação actual da humanidade, tanto nas brechas do planeta
que habitamos, como nas causas mais profundamente humanas da degradação
ambiental. Embora esta contemplação da realidade em si mesma já nos indique a
necessidade duma mudança de rumo e sugira algumas acções, procuremos agora
delinear grandes percursos de diálogo que nos ajudem a sair da espiral de
autodestruição onde estamos a afundar.
1.
O diálogo sobre o meio ambiente na política internacional
164.
Desde meados do século passado e superando muitas dificuldades, foi-se
consolidando a tendência de conceber o planeta como pátria e a humanidade como
povo que habita uma casa comum. Um mundo interdependente não significa
unicamente compreender que as consequências danosas dos estilos de vida,
produção e consumo afectam a todos, mas principalmente procurar que as soluções
sejam propostas a partir duma perspectiva global e não apenas para defesa dos
interesses de alguns países. A interdependência obriga-nos a pensar num
único mundo, num projecto comum. Mas, a mesma inteligência que foi
utilizada para um enorme desenvolvimento tecnológico não consegue encontrar
formas eficazes de gestão internacional para resolver as graves dificuldades
ambientais e sociais. Para enfrentar os problemas de fundo, que não se podem
resolver com acções de países isolados, torna-se indispensável um consenso
mundial que leve, por exemplo, a programar uma agricultura sustentável e
diversificada, desenvolver formas de energia renováveis e pouco poluidoras,
fomentar uma maior eficiência energética, promover uma gestão mais adequada dos
recursos florestais e marinhos, garantir a todos o acesso à água potável.
165.
Sabemos que a tecnologia baseada nos combustíveis fósseis – altamente
poluentes, sobretudo o carvão mas também o petróleo e, em menor medida, o gás –
deve ser, progressivamente e sem demora, substituída. Enquanto aguardamos por
um amplo desenvolvimento das energias renováveis, que já deveria ter começado,
é legítimo optar pelo mal menor ou recorrer a soluções transitórias. Todavia,
na comunidade internacional, não se consegue suficiente acordo sobre a
responsabilidade de quem deve suportar os maiores custos da transição
energética. Nas últimas décadas, as questões ambientais deram origem a um amplo
debate público, que fez crescer na sociedade civil espaços de notável
compromisso e generosa dedicação. A política e a indústria reagem com lentidão,
longe de estar à altura dos desafios mundiais. Neste sentido, pode-se dizer
que, enquanto a humanidade do período pós-industrial talvez fique recordada
como uma das mais irresponsáveis da história, espera-se que a humanidade dos
inícios do século XXI possa ser lembrada por ter assumido com generosidade as
suas graves responsabilidades.
166.
O movimento ecológico mundial já percorreu um longo caminho, enriquecido pelo
esforço de muitas organizações da sociedade civil. Não seria possível mencioná-las
todas aqui, nem repassar a história das suas contribuições. Mas, graças a tanta
dedicação, as questões ambientais têm estado cada vez mais presentes na agenda
pública e tornaram-se um convite permanente a pensar a longo prazo. Apesar
disso, as cimeiras mundiais sobre o meio ambiente dos últimos anos não
corresponderam às expectativas, porque não alcançaram, por falta de decisão
política, acordos ambientais globais realmente significativos e eficazes.
167.
Dentre elas, há que recordar a Cimeira da Terra, celebrada em 1992 no Rio de
Janeiro. Lá se proclamou que «os seres humanos constituem o centro das
preocupações relacionadas com o desenvolvimento sustentável».[126] Retomando
alguns conteúdos da Declaração de Estocolmo (1972), sancionou, entre outras
coisas, a cooperação internacional no cuidado do ecossistema de toda a terra, a
obrigação de quem contaminar assumir economicamente os custos derivados, o
dever de avaliar o impacto ambiental de toda e qualquer obra ou projecto.
Propôs o objectivo de estabilizar as concentrações de gases com efeito de
estufa na atmosfera para inverter a tendência do aquecimento global. Também
elaborou uma agenda com um programa de acção e uma convenção sobre
biodiversidade, declarou princípios em matéria florestal. Embora tal cimeira
marcasse um passo em frente e fosse verdadeiramente profética para a sua época,
os acordos tiveram um baixo nível de implementação, porque não se estabeleceram
adequados mecanismos de controle, revisão periódica e sanção das violações. Os
princípios enunciados continuam a requerer caminhos eficazes e ágeis de
realização prática.
168.
Como experiências positivas, pode-se mencionar, por exemplo, a Convenção de
Basileia sobre os resíduos perigosos, com um sistema de notificação, níveis
estipulados e controles, e também a Convenção vinculante sobre o comércio
internacional das espécies da fauna e da flora selvagens ameaçadas de extinção,
que prevê missões de verificação do seu efectivo cumprimento. Graças à
Convenção de Viena para a protecção da camada de ozono e a respectiva
implementação através do Protocolo de Montreal e as suas emendas, o problema da
diminuição da referida camada parece ter entrado numa fase de solução.
169.
No cuidado da biodiversidade e no contraste à desertificação, os avanços foram
muito menos significativos. Relativamente às mudanças climáticas, os progressos
são, infelizmente, muito escassos. A redução de gases com efeito de estufa
requer honestidade, coragem e responsabilidade, sobretudo dos países mais
poderosos e mais poluentes. A Conferência das Nações Unidas sobre o
Desenvolvimento Sustentável, chamada Rio+20 (Rio de Janeiro 2012), emitiu uma
Declaração Final extensa mas ineficaz. As negociações internacionais não podem
avançar significativamente por causa das posições dos países que privilegiam os
seus interesses nacionais sobre o bem comum global. Aqueles que hão-de sofrer
as consequências que tentamos dissimular, recordarão esta falta de consciência
e de responsabilidade. Durante o período de elaboração desta encíclica, o
debate adquiriu particular intensidade. Nós, crentes, não podemos deixar de
rezar a Deus pela evolução positiva nos debates actuais, para que as gerações
futuras não sofram as consequências de demoras imprudentes.
170.
Algumas das estratégias para a baixa emissão de gases poluentes apostam na
internacionalização dos custos ambientais, com o perigo de impor aos países de
menores recursos pesados compromissos de redução de emissões comparáveis aos
dos países mais industrializados. A imposição destas medidas penaliza os países
mais necessitados de desenvolvimento. Assim, acrescenta-se uma nova injustiça sob
a capa do cuidado do meio ambiente. Como sempre, a corda quebra pelo ponto mais
fraco. Uma vez que os efeitos das mudanças climáticas se farão sentir durante
muito tempo, mesmo que agora sejam tomadas medidas rigorosas, alguns países com
escassos recursos precisarão de ajuda para se adaptar a efeitos que já estão a
produzir-se e afectam as suas economias. É verdade que há responsabilidades
comuns, mas diferenciadas, pelo simples motivo – como disseram os bispos da
Bolívia – que «os países que foram beneficiados por um alto grau de
industrialização, à custa duma enorme emissão de gases com efeito de estufa,
têm maior responsabilidade em contribuir para a solução dos problemas que
causaram».[127]
171.
A estratégia de compra-venda de «créditos de emissão» pode levar a uma nova
forma de especulação, que não ajudaria a reduzir a emissão global de gases
poluentes. Este sistema parece ser uma solução rápida e fácil, com a aparência
dum certo compromisso com o meio ambiente, mas que não implica de forma alguma
uma mudança radical à altura das circunstâncias. Pelo contrário, pode tornar-se
um diversivo que permite sustentar o consumo excessivo de alguns países e
sectores.
172.
Para os países pobres, as prioridades devem ser a erradicação da miséria e o
desenvolvimento social dos seus habitantes; ao mesmo tempo devem examinar o
nível escandaloso de consumo de alguns sectores privilegiados da sua população
e contrastar melhor a corrupção. Sem dúvida, devem também desenvolver formas
menos poluentes de produção de energia, mas para isso precisam de contar com a
ajuda dos países que cresceram muito à custa da actual poluição do planeta. O
aproveitamento directo da energia solar, tão abundante, exige que se
estabeleçam mecanismos e subsídios tais, que os países em vias de
desenvolvimento possam ter acesso à transferência de tecnologias, assistência
técnica e recursos financeiros, mas sempre prestando atenção às condições
concretas, pois «nem sempre se avalia adequadamente a compatibilidade dos
sistemas com o contexto para o qual são projectados».[128] Os
custos seriam baixos se comparados com os riscos das mudanças climáticas. Em
todo o caso, trata-se primariamente duma decisão ética, fundada na
solidariedade de todos os povos.
173.
Urgem acordos internacionais que se cumpram, dada a escassa capacidade das
instâncias locais para intervirem de maneira eficaz. As relações entre os
Estados devem salvaguardar a soberania de cada um, mas também estabelecer
caminhos consensuais para evitar catástrofes locais que acabariam por danificar
a todos. São necessários padrões reguladores globais que imponham obrigações e
impeçam acções inaceitáveis, como o facto de países poderosos descarregarem,
sobre outros países, resíduos e indústrias altamente poluentes.
174.
Mencionemos também o sistema de governança dos oceanos. Com efeito, embora
tenha havido várias convenções internacionais e regionais, a fragmentação e a
falta de severos mecanismos de regulamentação, controle e sanção acabam por
minar todos os esforços. O problema crescente dos resíduos marinhos e da
protecção das áreas marinhas para além das fronteiras nacionais continua a
representar um desafio especial. Em definitivo, precisamos de um acordo sobre
os regimes de governança para toda a gama dos chamados bens comuns globais.
175.
A lógica que dificulta a tomada de decisões drásticas para inverter a tendência
ao aquecimento global é a mesma que não permite cumprir o objectivo de
erradicar a pobreza. Precisamos duma reacção global mais responsável, que
implique enfrentar, contemporaneamente, a redução da poluição e o
desenvolvimento dos países e regiões pobres. O século XXI, mantendo um sistema
de governança próprio de épocas passadas, assiste a uma perda de poder dos
Estados nacionais, sobretudo porque a dimensão económico-financeira, de
carácter transnacional, tende a prevalecer sobre a política. Neste contexto,
torna-se indispensável a maturação de instituições internacionais mais fortes e
eficazmente organizadas, com autoridades designadas de maneira imparcial por
meio de acordos entre os governos nacionais e dotadas de poder de sancionar.
Com afirmou Bento XVI, na linha desenvolvida até agora pela
doutrina social da Igreja, «para o governo da economia mundial, para sanar as
economias atingidas pela crise de modo a prevenir o agravamento da mesma e
consequentes maiores desequilíbrios, para realizar um oportuno e integral
desarmamento, a segurança alimentar e a paz, para garantir a salvaguarda do
ambiente e para regulamentar os fluxos migratórios urge a presença de uma
verdadeira Autoridade política mundial, delineada já pelo meu predecessor,
[São]João XXIII».[129] Nesta
perspectiva, a diplomacia adquire uma importância inédita, chamada a promover
estratégias internacionais para prevenir os problemas mais graves que acabam
por afectar a todos.
2.
O diálogo para novas políticas nacionais e locais
176.
Há vencedores e vencidos não só entre os países, mas também dentro dos países
pobres, onde se devem identificar as diferentes responsabilidades. Por isso, as
questões relacionadas com o meio ambiente e com o desenvolvimento económico já
não se podem olhar apenas a partir das diferenças entre os países, mas exigem
que se preste atenção às políticas nacionais e locais.
177.
Perante a possibilidade duma utilização irresponsável das capacidades humanas,
são funções inadiáveis de cada Estado planificar, coordenar, vigiar e sancionar
dentro do respectivo território. Como pode a sociedade organizar e salvaguardar
o seu futuro num contexto de constantes inovações tecnológicas? Um factor que
actua como moderador efectivo é o direito, que estabelece as regras para as
condutas permitidas à luz do bem comum. Os limites que uma sociedade sã, madura
e soberana deve impor têm a ver com previsão e precaução, regulamentações
adequadas, vigilância sobre a aplicação das normas, contraste da corrupção,
acções de controle operacional sobre o aparecimento de efeitos não desejados
dos processos de produção, e oportuna intervenção perante riscos incertos ou
potenciais. Existe uma crescente jurisprudência que visa reduzir os efeitos
poluentes dos empreendimentos. Mas a estrutura política e institucional não
existe apenas para evitar malversações, mas para incentivar as boas práticas,
estimular a criatividade que busca novos caminhos, facilitar as iniciativas
pessoais e colectivas.
178.
O drama duma política focalizada nos resultados imediatos, apoiada também por
populações consumistas, torna necessário produzir crescimento a curto prazo.
Respondendo a interesses eleitorais, os governos não se aventuram facilmente a
irritar a população com medidas que possam afectar o nível de consumo ou pôr em
risco investimentos estrangeiros. A construção míope do poder frena a inserção
duma agenda ambiental com visão ampla na agenda pública dos governos.
Esquece-se, assim, que «o tempo é superior ao espaço»[130] e
que sempre somos mais fecundos quando temos maior preocupação por gerar
processos do que por dominar espaços de poder. A grandeza política mostra-se
quando, em momentos difíceis, se trabalha com base em grandes princípios e
pensando no bem comum a longo prazo. O poder político tem muita dificuldade em
assumir este dever num projecto de nação.
179.
Nalguns lugares, estão a desenvolver-se cooperativas para a exploração de
energias renováveis, que consentem o auto-abastecimento local e até mesmo a
venda da produção em excesso. Este exemplo simples indica que, enquanto a ordem
mundial existente se revela impotente para assumir responsabilidades, a
instância local pode fazer a diferença. Com efeito, aqui é possível gerar uma
maior responsabilidade, um forte sentido de comunidade, uma especial capacidade
de solicitude e uma criatividade mais generosa, um amor apaixonado pela própria
terra, tal como se pensa naquilo que se deixa aos filhos e netos. Estes valores
têm um enraizamento muito profundo nas populações aborígenes. Dado que o
direito por vezes se mostra insuficiente devido à corrupção, requer-se uma
decisão política sob pressão da população. A sociedade, através de organismos
não-governamentais e associações intermédias, deve forçar os governos a
desenvolver normativas, procedimentos e controles mais rigorosos. Se os
cidadãos não controlam o poder político – nacional, regional e municipal –,
também não é possível combater os danos ambientais. Além disso, as legislações
municipais podem ser mais eficazes, se houver acordos entre populações vizinhas
para sustentarem as mesmas políticas ambientais.
180.
Não se pode pensar em receitas uniformes, porque há problemas e limites
específicos de cada país ou região. Também é verdade que o realismo político
pode exigir medidas e tecnologias de transição, desde que estejam acompanhadas
pelo projecto e a aceitação de compromissos graduais vinculativos. Ao mesmo
tempo, porém, a nível nacional e local, há sempre muito que fazer, como, por
exemplo, promover formas de poupança energética. Isto implica favorecer
modalidades de produção industrial com a máxima eficiência energética e menor
utilização de matérias-primas, retirando do mercado os produtos pouco eficazes
do ponto de vista energético ou mais poluentes. Podemos mencionar também uma boa
gestão dos transportes ou técnicas de construção e restruturação de edifícios
que reduzam o seu consumo energético e o seu nível de poluição. Além disso, a
acção política local pode orientar-se para a alteração do consumo, o
desenvolvimento duma economia de resíduos e reciclagem, a protecção de
determinadas espécies e a programação duma agricultura diversificada com a
rotação de culturas. É possível favorecer a melhoria agrícola de regiões
pobres, através de investimentos em infra-estruturas rurais, na organização do
mercado local ou nacional, em sistemas de irrigação, no desenvolvimento de
técnicas agrícolas sustentáveis. Podem-se facilitar formas de cooperação ou de
organização comunitária que defendam os interesses dos pequenos produtores e
salvaguardem da predação os ecossistemas locais. É tanto o que se pode fazer!
181.
Indispensável é a continuidade, porque não se podem modificar as políticas
relativas às alterações climáticas e à protecção ambiental todas as vezes que
muda um governo. Os resultados requerem muito tempo e comportam custos
imediatos com efeitos que não poderão ser exibidos no período de vida dum
governo. Por isso, sem a pressão da população e das instituições, haverá sempre
relutância a intervir, e mais ainda quando houver urgências a resolver. Para um
político, assumir estas responsabilidades com os custos que implicam não
corresponde à lógica eficientista e imediatista actual da economia e da
política, mas, se ele tiver a coragem de o fazer, poderá novamente reconhecer a
dignidade que Deus lhe deu como pessoa e deixará, depois da sua passagem por
esta história, um testemunho de generosa responsabilidade. Importa dar um lugar
preponderante a uma política salutar, capaz de reformar as instituições,
coordená-las e dotá-las de bons procedimentos, que permitam superar pressões e
inércias viciosas. Todavia é preciso acrescentar que os melhores dispositivos
acabam por sucumbir, quando faltam as grandes metas, os valores, uma
compreensão humanista e rica de significado, capazes de conferir a cada sociedade
uma orientação nobre e generosa.
3.
Diálogo e transparência nos processos decisórios
182.
A previsão do impacto ambiental dos empreendimentos e projectos requer
processos políticos transparentes e sujeitos a diálogo, enquanto a corrupção,
que esconde o verdadeiro impacto ambiental dum projecto em troca de favores,
frequentemente leva a acordos ambíguos que fogem ao dever de informar e a um
debate profundo.
183.
Um estudo de impacto ambiental não deveria ser posterior à elaboração dum
projecto produtivo ou de qualquer política, plano ou programa. Há-de inserir-se
desde o princípio e elaborar-se de forma interdisciplinar, transparente e
independente de qualquer pressão económica ou política. Deve aparecer unido à
análise das condições de trabalho e dos possíveis efeitos na saúde física e
mental das pessoas, na economia local, na segurança. Assim os resultados
económicos poder-se-ão prever de forma mais realista, tendo em conta os
cenários possíveis e, eventualmente, antecipando a necessidade dum investimento
maior para resolver efeitos indesejáveis que possam ser corrigidos. É sempre
necessário alcançar consenso entre os vários actores sociais, que podem trazer
diferentes perspectivas, soluções e alternativas. Mas, no debate, devem ter um
lugar privilegiado os moradores locais, aqueles mesmos que se interrogam sobre
o que desejam para si e para os seus filhos e podem ter em consideração as
finalidades que transcendem o interesse económico imediato. É preciso abandonar
a ideia de «intervenções» sobre o meio ambiente, para dar lugar a políticas
pensadas e debatidas por todas as partes interessadas. A participação requer
que todos sejam adequadamente informados sobre os vários aspectos e os
diferentes riscos e possibilidades, e não se reduza à decisão inicial sobre um
projecto, mas implique também acções de controle ou monitoramento constante. É
necessário haver sinceridade e verdade nas discussões científicas e políticas,
sem se limitar a considerar o que é permitido ou não pela legislação.
184.
Quando surgem eventuais riscos para o meio ambiente que afectam o bem comum
presente e futuro, esta situação exige «que as decisões sejam baseadas num
confronto entre riscos e benefícios previsíveis para cada opção alternativa
possível».[131]Isto
vale sobretudo quando um projecto pode causar um incremento na exploração dos
recursos naturais, nas emissões ou descargas, na produção de resíduos, ou então
uma mudança significativa na paisagem, no habitat de espécies protegidas ou num
espaço público. Alguns projectos, não apoiados por uma análise bem cuidada,
podem afectar profundamente a qualidade de vida dum lugar, devido a questões
muito diferentes entre si, como, por exemplo, uma poluição acústica não
prevista, a redução do horizonte visual, a perda de valores culturais, os
efeitos do uso da energia nuclear. A cultura consumista, que dá prioridade ao
curto prazo e aos interesses privados, pode favorecer análises demasiado
rápidas ou consentir a ocultação de informação.
185.
Em qualquer discussão sobre um empreendimento, dever-se-ia pôr uma série de
perguntas, para poder discernir se o mesmo levará a um desenvolvimento verdadeiramente
integral: Para que fim? Por qual motivo? Onde? Quando? De que maneira? A quem
ajuda? Quais são os riscos? A que preço? Quem paga as despesas e como o fará?
Neste exame, há questões que devem ter prioridade. Por exemplo, sabemos que a
água é um recurso escasso e indispensável, sendo um direito fundamental que
condiciona o exercício doutros direitos humanos. Isto está, sem dúvida, acima
de toda a análise de impacto ambiental duma região.
186.
Na Declaração do Rio, de 1992, afirma-se que, «quando existem ameaças de danos
graves ou irreversíveis, a falta de certezas científicas absolutas não poderá
constituir um motivo para adiar a adopção de medidas eficazes»[132] que
impeçam a degradação do meio ambiente. Este princípio de precaução permite a
protecção dos mais fracos, que dispõem de poucos meios para se defender e
fornecer provas irrefutáveis. Se a informação objectiva leva a prever um dano
grave e irreversível, mesmo que não haja uma comprovação indiscutível, seja o
projecto que for deverá suspender-se ou modificar-se. Assim, inverte-se o ónus
da prova, já que, nestes casos, é preciso fornecer uma demonstração objectiva e
contundente de que a actividade proposta não vai gerar danos graves ao meio
ambiente ou às pessoas que nele habitam.
187.
Isto não implica opor-se a toda e qualquer inovação tecnológica que permita
melhorar a qualidade de vida duma população. Mas, em todo o caso, deve
permanecer de pé que a rentabilidade não pode ser o único critério a ter em
conta e, na hora em que aparecessem novos elementos de juízo a partir de
ulteriores dados informativos, deveria haver uma nova avaliação com a participação
de todas as partes interessadas. O resultado do debate pode ser a decisão de
não avançar num projecto, mas poderia ser também a sua modificação ou a
elaboração de propostas alternativas.
188.
Há discussões sobre problemas relativos ao meio ambiente, onde é difícil chegar
a um consenso. Repito uma vez mais que a Igreja não pretende definir as
questões científicas nem substituir-se à política, mas convido a um debate
honesto e transparente, para que as necessidades particulares ou as ideologias
não lesem o bem comum.
4.
Política e economia em diálogo para a plenitude humana
189.
A política não deve submeter-se à economia, e esta não deve submeter-se aos
ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia. Pensando no bem comum, hoje
precisamos imperiosamente que a política e a economia, em diálogo, se coloquem
decididamente ao serviço da vida, especialmente da vida humana. A salvação dos
bancos a todo o custo, fazendo pagar o preço à população, sem a firme decisão
de rever e reformar o sistema inteiro, reafirma um domínio absoluto da finança
que não tem futuro e só poderá gerar novas crises depois duma longa, custosa e
aparente cura. A crise financeira dos anos 2007 e 2008 era a ocasião para o
desenvolvimento duma nova economia mais atenta aos princípios éticos e para uma
nova regulamentação da actividade financeira especulativa e da riqueza virtual.
Mas não houve uma reacção que fizesse repensar os critérios obsoletos que
continuam a governar o mundo. A produção não é sempre racional, e muitas vezes
está ligada a variáveis económicas que atribuem aos produtos um valor que não
corresponde ao seu valor real. Isto leva frequentemente a uma superprodução
dalgumas mercadorias, com um impacto ambiental desnecessário, que
simultaneamente danifica muitas economias regionais.[133]Habitualmente,
a bolha financeira é também uma bolha produtiva. Em suma, o que não se enfrenta
com energia é o problema da economia real, aquela que torna possível, por
exemplo, que se diversifique e melhore a produção, que as empresas funcionem
adequadamente, que as pequenas e médias empresas se desenvolvam e criem postos
de trabalho.
190.
Neste contexto, sempre se deve recordar que «a protecção ambiental não pode ser
assegurada somente com base no cálculo financeiro de custos e benefícios. O
ambiente é um dos bens que os mecanismos de mercado não estão aptos a defender
ou a promover adequadamente».[134] Mais
uma vez repito que convém evitar uma concepção mágica do mercado, que tende a
pensar que os problemas se resolvem apenas com o crescimento dos lucros das
empresas ou dos indivíduos. Será realista esperar que quem está obcecado com a
maximização dos lucros se detenha a considerar os efeitos ambientais que
deixará às próximas gerações? Dentro do esquema do ganho não há lugar para
pensar nos ritmos da natureza, nos seus tempos de degradação e regeneração, e
na complexidade dos ecossistemas que podem ser gravemente alterados pela
intervenção humana. Além disso, quando se fala de biodiversidade, no máximo
pensa-se nela como um reservatório de recursos económicos que poderia ser
explorado, mas não se considera seriamente o valor real das coisas, o seu
significado para as pessoas e as culturas, os interesses e as necessidades dos
pobres.
191.
Quando se colocam estas questões, alguns reagem acusando os outros de pretender
parar, irracionalmente, o progresso e o desenvolvimento humano. Mas temos de
nos convencer que, reduzir um determinado ritmo de produção e consumo, pode dar
lugar a outra modalidade de progresso e desenvolvimento. Os esforços para um
uso sustentável dos recursos naturais não são gasto inútil, mas um investimento
que poderá proporcionar outros benefícios económicos a médio prazo. Se não
temos vista curta, podemos descobrir que pode ser muito rentável a
diversificação duma produção mais inovadora e com menor impacto ambiental.
Trata-se de abrir caminho a oportunidades diferentes, que não implicam frenar a
criatividade humana nem o seu sonho de progresso, mas orientar esta energia por
novos canais.
192.
Por exemplo, um percurso de desenvolvimento produtivo mais criativo e melhor
orientado poderia corrigir a disparidade entre o excessivo investimento
tecnológico no consumo e o escasso investimento para resolver os problemas
urgentes da humanidade; poderia gerar formas inteligentes e rentáveis de
reutilização, recuperação funcional e reciclagem; poderia melhorar a eficiência
energética das cidades... A diversificação produtiva oferece à inteligência
humana possibilidades muito amplas de criar e inovar, ao mesmo tempo que
protege o meio ambiente e cria mais oportunidades de trabalho. Esta seria uma
criatividade capaz de fazer reflorescer a nobreza do ser humano, porque é mais
dignificante usar a inteligência, com audácia e responsabilidade, para encontrar
formas de desenvolvimento sustentável e equitativo, no quadro duma concepção
mais ampla da qualidade de vida. Ao contrário, é menos dignificante e criativo
e mais superficial insistir na criação de formas de espoliação da natureza só
para oferecer novas possibilidades de consumo e de ganho imediato.
193.
Assim, se nalguns casos o desenvolvimento sustentável implicará novas
modalidades para crescer, noutros casos – face ao crescimento ganancioso e
irresponsável, que se verificou ao longo de muitas décadas – devemos pensar
também em abrandar um pouco a marcha, pôr alguns limites razoáveis e até mesmo
retroceder antes que seja tarde. Sabemos que é insustentável o comportamento
daqueles que consomem e destroem cada vez mais, enquanto outros ainda não podem
viver de acordo com a sua dignidade humana. Por isso, chegou a hora de aceitar
um certo decréscimo do consumo nalgumas partes do mundo, fornecendo recursos
para que se possa crescer de forma saudável noutras partes. Bento XVI dizia que «é preciso que as
sociedades tecnologicamente avançadas estejam dispostas a favorecer
comportamentos caracterizados pela sobriedade, diminuindo as próprias
necessidades de energia e melhorando as condições da sua utilização».[135]
194.
Para que apareçam novos modelos de progresso, precisamos de «converter o modelo
de desenvolvimento global»[136],
e isto implica reflectir responsavelmente «sobre o sentido da economia e dos
seus objectivos, para corrigir as suas disfunções e deturpações».[137] Não
é suficiente conciliar, a meio termo, o cuidado da natureza com o ganho
financeiro, ou a preservação do meio ambiente com o progresso. Neste campo, os
meios-termos são apenas um pequeno adiamento do colapso. Trata-se simplesmente
de redefinir o progresso. Um desenvolvimento tecnológico e económico, que não
deixa um mundo melhor e uma qualidade de vida integralmente superior, não se
pode considerar progresso. Além disso, muitas vezes a qualidade real de vida
das pessoas diminui – pela deterioração do ambiente, a baixa qualidade dos produtos
alimentares ou o esgotamento de alguns recursos – no contexto dum crescimento
da economia. Então, muitas vezes, o discurso do crescimento sustentável
torna-se um diversivo e um meio de justificação que absorve valores do discurso
ecologista dentro da lógica da finança e da tecnocracia, e a responsabilidade
social e ambiental das empresas reduz-se, na maior parte dos casos, a uma série
de acções de publicidade e imagem.
195.
O princípio da maximização do lucro, que tende a isolar-se de todas as outras considerações,
é uma distorção conceptual da economia: desde que aumente a produção, pouco
interessa que isso se consiga à custa dos recursos futuros ou da saúde do meio
ambiente; se o derrube duma floresta aumenta a produção, ninguém insere no
respectivo cálculo a perda que implica desertificar um território, destruir a
biodiversidade ou aumentar a poluição. Por outras palavras, as empresas obtêm
lucros calculando e pagando uma parte ínfima dos custos. Poder-se-ia considerar
ético somente um comportamento em que «os custos económicos e sociais derivados
do uso dos recursos ambientais comuns sejam reconhecidos de maneira
transparente e plenamente suportados por quem deles usufrui e não por outras
populações nem pelas gerações futuras».[138] A
mentalidade utilitária, que fornece apenas uma análise estática da realidade em
função de necessidades actuais, está presente tanto quando é o mercado que
atribui os recursos como quando o faz um Estado planificador.
196.
Qual é o lugar da política? Recordemos o princípio da subsidiariedade, que dá
liberdade para o desenvolvimento das capacidades presentes a todos os níveis, mas
simultaneamente exige mais responsabilidade pelo bem comum a quem tem mais
poder. É verdade que, hoje, alguns sectores económicos exercem mais poder do
que os próprios Estados. Mas não se pode justificar uma economia sem política,
porque seria incapaz de promover outra lógica para governar os vários aspectos
da crise actual. A lógica que não deixa espaço para uma sincera preocupação
pelo meio ambiente é a mesma em que não encontra espaço a preocupação por
integrar os mais frágeis, porque, «no modelo “do êxito” e “individualista” em
vigor, parece que não faz sentido investir para que os lentos, fracos ou menos
dotados possam também singrar na vida».[139]
197.
Precisamos duma política que pense com visão ampla e leve por diante uma
reformulação integral, abrangendo num diálogo interdisciplinar os vários
aspectos da crise. Muitas vezes, a própria política é responsável pelo seu
descrédito, devido à corrupção e à falta de boas políticas públicas. Se o
Estado não cumpre o seu papel numa região, alguns grupos económicos podem-se
apresentar como benfeitores e apropriar-se do poder real, sentindo-se
autorizados a não observar certas normas até se chegar às diferentes formas de
criminalidade organizada, tráfico de pessoas, narcotráfico e violência muito
difícil de erradicar. Se a política não é capaz de romper uma lógica perversa e
perde-se também em discursos inconsistentes, continuaremos sem enfrentar os
grandes problemas da humanidade. Uma estratégia de mudança real exige repensar
a totalidade dos processos, pois não basta incluir considerações ecológicas
superficiais enquanto não se puser em discussão a lógica subjacente à cultura
actual. Uma política sã deveria ser capaz de assumir este desafio.
198.
A política e a economia tendem a culpar-se reciprocamente a respeito da pobreza
e da degradação ambiental. Mas o que se espera é que reconheçam os seus
próprios erros e encontrem formas de interacção orientadas para o bem comum.
Enquanto uns se afanam apenas com o ganho económico e os outros estão obcecados
apenas por conservar ou aumentar o poder, o que nos resta são guerras ou
acordos espúrios, onde o que menos interessa às duas partes é preservar o meio
ambiente e cuidar dos mais fracos. Vale aqui também o princípio de que «a
unidade é superior ao conflito».[140]
5.
As religiões no diálogo com as ciências
199.
Não se pode sustentar que as ciências empíricas expliquem completamente a vida,
a essência íntima de todas as criaturas e o conjunto da realidade. Isto seria
ultrapassar indevidamente os seus confins metodológicos limitados. Se se
reflecte dentro deste quadro restrito, desaparecem a sensibilidade estética, a
poesia e ainda a capacidade da razão perceber o sentido e a finalidade das
coisas.[141] Quero
lembrar que «os textos religiosos clássicos podem oferecer um significado para
todas as épocas, possuem uma força motivadora que abre sempre novos horizontes
(...). Será razoável e inteligente relegá-los para a obscuridade, só porque
nasceram no contexto duma crença religiosa?»[142] Realmente,
é ingénuo pensar que os princípios éticos possam ser apresentados de modo
puramente abstracto, desligados de todo o contexto, e o facto de aparecerem com
uma linguagem religiosa não lhes tira valor algum no debate público. Os
princípios éticos que a razão é capaz de perceber, sempre podem reaparecer sob
distintas roupagens e expressos com linguagens diferentes, incluindo a
religiosa.
200.
Além disso, qualquer solução técnica que as ciências pretendam oferecer será
impotente para resolver os graves problemas do mundo, se a humanidade perde o
seu rumo, se esquece as grandes motivações que tornam possível a convivência
social, o sacrifício, a bondade. Em todo o caso, será preciso fazer apelo aos
crentes para que sejam coerentes com a sua própria fé e não a contradigam com
as suas acções; será necessário insistir para que se abram novamente à graça de
Deus e se nutram profundamente das próprias convicções sobre o amor, a justiça
e a paz. Se às vezes uma má compreensão dos nossos princípios nos levou a
justificar o abuso da natureza, ou o domínio despótico do ser humano sobre a
criação, ou as guerras, a injustiça e a violência, nós, crentes, podemos
reconhecer que então fomos infiéis ao tesouro de sabedoria que devíamos
guardar. Muitas vezes os limites culturais de distintas épocas condicionaram
esta consciência do próprio património ético e espiritual, mas é precisamente o
regresso às respectivas fontes que permite às religiões responder melhor às
necessidades actuais.
201.
A maior parte dos habitantes do planeta declara-se crente, e isto deveria levar
as religiões a estabelecerem diálogo entre si, visando o cuidado da natureza, a
defesa dos pobres, a construção duma trama de respeito e de fraternidade. De
igual modo é indispensável um diálogo entre as próprias ciências, porque cada
uma costuma fechar-se nos limites da sua própria linguagem, e a especialização
tende a converter-se em isolamento e absolutização do próprio saber. Isto
impede de enfrentar adequadamente os problemas do meio ambiente. Torna-se
necessário também um diálogo aberto e respeitador dos diferentes movimentos
ecologistas, entre os quais não faltam as lutas ideológicas. A gravidade da
crise ecológica obriga-nos, a todos, a pensar no bem comum e a prosseguir pelo
caminho do diálogo que requer paciência, ascese e generosidade, lembrando-nos
sempre que «a realidade é superior à ideia».[143]
CAPÍTULO VI
EDUCAÇÃO E ESPIRITUALIDADE ECOLÓGICAS
202.
Muitas coisas devem reajustar o próprio rumo, mas antes de tudo é a humanidade
que precisa de mudar. Falta a consciência duma origem comum, duma recíproca
pertença e dum futuro partilhado por todos. Esta consciência basilar permitiria
o desenvolvimento de novas convicções, atitudes e estilos de vida. Surge,
assim, um grande desafio cultural, espiritual e educativo que implicará longos
processos de regeneração.
1.
Apontar para outro estilo de vida
203.
Dado que o mercado tende a criar um mecanismo consumista compulsivo para vender
os seus produtos, as pessoas acabam por ser arrastadas pelo turbilhão das
compras e gastos supérfluos. O consumismo obsessivo é o reflexo subjectivo do
paradigma tecno-económico. Está a acontecer aquilo que já assinalava Romano
Guardini: o ser humano «aceita os objectos comuns e as formas habituais da vida
como lhe são impostos pelos planos nacionais e pelos produtos fabricados em série
e, em geral, age assim com a impressão de que tudo isto seja razoável e justo».[144] O
referido paradigma faz crer a todos que são livres pois conservam uma suposta
liberdade de consumir, quando na realidade apenas possui a liberdade a minoria
que detém o poder económico e financeiro. Nesta confusão, a humanidade
pós-moderna não encontrou uma nova compreensão de si mesma que a possa
orientar, e esta falta de identidade é vivida com angústia. Temos demasiados
meios para escassos e raquíticos fins.
204.
A situação actual do mundo «gera um sentido de precariedade e insegurança, que,
por sua vez, favorece formas de egoísmo colectivo».[145] Quando
as pessoas se tornam auto-referenciais e se isolam na própria consciência,
aumentam a sua voracidade: quanto mais vazio está o coração da pessoa, tanto
mais necessita de objectos para comprar, possuir e consumir. Em tal contexto,
parece não ser possível, para uma pessoa, aceitar que a realidade lhe assinale
limites; neste horizonte, não existe sequer um verdadeiro bem comum. Se este é
o tipo de sujeito que tende a predominar numa sociedade, as normas serão
respeitadas apenas na medida em que não contradigam as necessidades próprias.
Por isso, não pensemos só na possibilidade de terríveis fenómenos climáticos ou
de grandes desastres naturais, mas também nas catástrofes resultantes de crises
sociais, porque a obsessão por um estilo de vida consumista, sobretudo quando
poucos têm possibilidades de o manter, só poderá provocar violência e
destruição recíproca.
205.
Mas nem tudo está perdido, porque os seres humanos, capazes de tocar o fundo da
degradação, podem também superar-se, voltar a escolher o bem e regenerar-se,
para além de qualquer condicionalismo psicológico e social que lhes seja
imposto. São capazes de se olhar a si mesmos com honestidade, externar o
próprio pesar e encetar caminhos novos rumo à verdadeira liberdade. Não há
sistemas que anulem, por completo, a abertura ao bem, à verdade e à beleza, nem
a capacidade de reagir que Deus continua a animar no mais fundo dos nossos
corações. A cada pessoa deste mundo, peço para não esquecer esta sua dignidade
que ninguém tem o direito de lhe tirar.
206.
Uma mudança nos estilos de vida poderia chegar a exercer uma pressão salutar
sobre quantos detêm o poder político, económico e social. Verifica-se isto
quando os movimentos de consumidores conseguem que se deixe de adquirir
determinados produtos e assim se tornam eficazes na mudança do comportamento
das empresas, forçando-as a reconsiderar o impacto ambiental e os modelos de
produção. É um facto que, quando os hábitos da sociedade afectam os ganhos das
empresas, estas vêem-se pressionadas a mudar a produção. Isto lembra-nos a
responsabilidade social dos consumidores. «Comprar é sempre um acto moral, para
além de económico».[146]
Por isso, hoje, «o tema da degradação ambiental põe em questão os
comportamentos de cada um de nós».[147]
207.
A Carta da Terra convidava-nos, a todos, a começar de novo deixando para trás
uma etapa de autodestruição, mas ainda não desenvolvemos uma consciência
universal que o torne possível. Por isso, atrevo-me a propor de novo aquele
considerável desafio: «Como nunca antes na história, o destino comum obriga-nos
a procurar um novo início (...). Que o nosso seja um tempo que se recorde pelo
despertar duma nova reverência face à vida, pela firme resolução de alcançar a
sustentabilidade, pela intensificação da luta em prol da justiça e da paz e
pela jubilosa celebração da vida».[148]
208.
Sempre é possível desenvolver uma nova capacidade de sair de si mesmo rumo ao
outro. Sem tal capacidade, não se reconhece às outras criaturas o seu valor,
não se sente interesse em cuidar de algo para os outros, não se consegue impor
limites para evitar o sofrimento ou a degradação do que nos rodeia. A atitude
basilar de se auto-transcender, rompendo com a consciência isolada e a
auto-referencialidade, é a raiz que possibilita todo o cuidado dos outros e do
meio ambiente; e faz brotar a reacção moral de ter em conta o impacto que possa
provocar cada acção e decisão pessoal fora de si mesmo. Quando somos capazes de
superar o individualismo, pode-se realmente desenvolver um estilo de vida
alternativo e torna-se possível uma mudança relevante na sociedade.
2.
Educar para a aliança entre a humanidade e o ambiente
209.
A consciência da gravidade da crise cultural e ecológica precisa de traduzir-se
em novos hábitos. Muitos estão cientes de que não basta o progresso actual e a
mera acumulação de objectos ou prazeres para dar sentido e alegria ao coração
humano, mas não se sentem capazes de renunciar àquilo que o mercado lhes
oferece. Nos países que deveriam realizar as maiores mudanças nos hábitos de
consumo, os jovens têm uma nova sensibilidade ecológica e um espírito generoso,
e alguns deles lutam admiravelmente pela defesa do meio ambiente, mas cresceram
num contexto de altíssimo consumo e bem-estar que torna difícil a maturação
doutros hábitos. Por isso, estamos perante um desafio educativo.
210.
A educação ambiental tem vindo a ampliar os seus objectivos. Se, no começo,
estava muito centrada na informação científica e na consciencialização e
prevenção dos riscos ambientais, agora tende a incluir uma crítica dos «mitos»
da modernidade baseados na razão instrumental (individualismo, progresso
ilimitado, concorrência, consumismo, mercado sem regras) e tende também a
recuperar os distintos níveis de equilíbrio ecológico: o interior consigo
mesmo, o solidário com os outros, o natural com todos os seres vivos, o
espiritual com Deus. A educação ambiental deveria predispor-nos para dar este
salto para o Mistério, do qual uma ética ecológica recebe o seu sentido mais
profundo. Além disso, há educadores capazes de reordenar os itinerários
pedagógicos duma ética ecológica, de modo que ajudem efectivamente a crescer na
solidariedade, na responsabilidade e no cuidado assente na compaixão.
211.
Às vezes, porém, esta educação, chamada a criar uma «cidadania ecológica»,
limita-se a informar e não consegue fazer maturar hábitos. A existência de leis
e normas não é suficiente, a longo prazo, para limitar os maus comportamentos,
mesmo que haja um válido controle. Para a norma jurídica produzir efeitos
importantes e duradouros, é preciso que a maior parte dos membros da sociedade
a tenha acolhido, com base em motivações adequadas, e reaja com uma
transformação pessoal. A doação de si mesmo num compromisso ecológico só é
possível a partir do cultivo de virtudes sólidas. Se uma pessoa habitualmente
se resguarda um pouco mais em vez de ligar o aquecimento, embora as suas
economias lhe permitam consumir e gastar mais, isso supõe que adquiriu
convicções e modos de sentir favoráveis ao cuidado do ambiente. É muito nobre
assumir o dever de cuidar da criação com pequenas acções diárias, e é
maravilhoso que a educação seja capaz de motivar para elas até dar forma a um
estilo de vida. A educação na responsabilidade ambiental pode incentivar vários
comportamentos que têm incidência directa e importante no cuidado do meio
ambiente, tais como evitar o uso de plástico e papel, reduzir o consumo de
água, diferenciar o lixo, cozinhar apenas aquilo que razoavelmente se poderá
comer, tratar com desvelo os outros seres vivos, servir-se dos transportes
públicos ou partilhar o mesmo veículo com várias pessoas, plantar árvores,
apagar as luzes desnecessárias… Tudo isto faz parte duma criatividade generosa
e dignificante, que põe a descoberto o melhor do ser humano. Voltar – com base
em motivações profundas – a utilizar algo em vez de o desperdiçar rapidamente
pode ser um acto de amor que exprime a nossa dignidade.
212.
E não se pense que estes esforços são incapazes de mudar o mundo. Estas acções
espalham, na sociedade, um bem que frutifica sempre para além do que é possível
constatar; provocam, no seio desta terra, um bem que sempre tende a
difundir-se, por vezes invisivelmente. Além disso, o exercício destes
comportamentos restitui-nos o sentimento da nossa dignidade, leva-nos a uma
maior profundidade existencial, permite-nos experimentar que vale a pena a
nossa passagem por este mundo.
213.
Vários são os âmbitos educativos: a escola, a família, os meios de comunicação,
a catequese, e outros. Uma boa educação escolar em tenra idade coloca sementes
que podem produzir efeitos durante toda a vida. Mas, quero salientar a
importância central da família, porque «é o lugar onde a vida, dom de Deus, pode
ser convenientemente acolhida e protegida contra os múltiplos ataques a que
está exposta, e pode desenvolver-se segundo as exigências de um crescimento
humano autêntico. Contra a denominada cultura da morte, a família constitui a
sede da cultura da vida».[149] Na
família, cultivam-se os primeiros hábitos de amor e cuidado da vida, como, por
exemplo, o uso correcto das coisas, a ordem e a limpeza, o respeito pelo
ecossistema local e a protecção de todas as criaturas. A família é o lugar da
formação integral, onde se desenvolvem os distintos aspectos, intimamente
relacionados entre si, do amadurecimento pessoal. Na família, aprende-se a
pedir licença sem servilismo, a dizer «obrigado» como expressão duma sentida
avaliação das coisas que recebemos, a dominar a agressividade ou a ganância, e
a pedir desculpa quando fazemos algo de mal. Estes pequenos gestos de sincera
cortesia ajudam a construir uma cultura da vida compartilhada e do respeito
pelo que nos rodeia.
214.
Compete à política e às várias associações um esforço de formação das
consciências da população. Naturalmente compete também à Igreja. Todas as
comunidades cristãs têm um papel importante a desempenhar nesta educação.
Espero também que, nos nossos Seminários e Casas Religiosas de Formação, se
eduque para uma austeridade responsável, a grata contemplação do mundo, o
cuidado da fragilidade dos pobres e do meio ambiente. Tendo em conta o muito
que está em jogo, do mesmo modo que são necessárias instituições dotadas de
poder para punir os danos ambientais, também nós precisamos de nos controlar e
educar uns aos outros.
215.
Neste contexto, «não se deve descurar nunca a relação que existe entre uma
educação estética apropriada e a preservação de um ambiente sadio».[150] Prestar
atenção à beleza e amá-la ajuda-nos a sair do pragmatismo utilitarista. Quando
não se aprende a parar a fim de admirar e apreciar o que é belo, não surpreende
que tudo se transforme em objecto de uso e abuso sem escrúpulos. Ao mesmo
tempo, se se quer conseguir mudanças profundas, é preciso ter presente que os
modelos de pensamento influem realmente nos comportamentos. A educação será
ineficaz e os seus esforços estéreis, se não se preocupar também por difundir
um novo modelo relativo ao ser humano, à vida, à sociedade e à relação com a
natureza. Caso contrário, continuará a perdurar o modelo consumista,
transmitido pelos meios de comunicação social e através dos mecanismos eficazes
do mercado.
3.
A conversão ecológica
216.
A grande riqueza da espiritualidade cristã, proveniente de vinte séculos de
experiências pessoais e comunitárias, constitui uma magnífica contribuição para
o esforço de renovar a humanidade. Desejo propor aos cristãos algumas linhas de
espiritualidade ecológica que nascem das convicções da nossa fé, pois aquilo
que o Evangelho nos ensina tem consequências no nosso modo de pensar, sentir e
viver. Não se trata tanto de propor ideias, como sobretudo falar das motivações
que derivam da espiritualidade para alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo.
Com efeito, não é possível empenhar-se em coisas grandes apenas com doutrinas,
sem uma mística que nos anima, sem «uma moção interior que impele, motiva,
encoraja e dá sentido à acção pessoal e comunitária».[151] Temos
de reconhecer que nós, cristãos, nem sempre recolhemos e fizemos frutificar as
riquezas dadas por Deus à Igreja, nas quais a espiritualidade não está
desligada do próprio corpo nem da natureza ou das realidades deste mundo, mas
vive com elas e nelas, em comunhão com tudo o que nos rodeia.
217.
Se «os desertos exteriores se multiplicam no mundo, porque os desertos
interiores se tornaram tão amplos»,[152] a
crise ecológica é um apelo a uma profunda conversão interior. Entretanto temos de
reconhecer também que alguns cristãos, até comprometidos e piedosos, com o
pretexto do realismo pragmático frequentemente se burlam das preocupações pelo
meio ambiente. Outros são passivos, não se decidem a mudar os seus hábitos e
tornam-se incoerentes. Falta-lhes, pois, umaconversão ecológica, que
comporta deixar emergir, nas relações com o mundo que os rodeia, todas as
consequências do encontro com Jesus. Viver a vocação de guardiões da obra de
Deus não é algo de opcional nem um aspecto secundário da experiência cristã,
mas parte essencial duma existência virtuosa.
218.
Recordemos o modelo de São Francisco de Assis, para propor uma sã relação com a
criação como dimensão da conversão integral da pessoa. Isto exige também
reconhecer os próprios erros, pecados, vícios ou negligências, e arrepender-se
de coração, mudar a partir de dentro. A Igreja na Austrália soube expressar a
conversão em termos de reconciliação com a criação: «Para realizar esta
reconciliação, devemos examinar as nossas vidas e reconhecer de que modo
ofendemos a criação de Deus com as nossas acções e com a nossa incapacidade de
agir. Devemos fazer a experiência duma conversão, duma mudança do coração».[153]
219.
Todavia, para se resolver uma situação tão complexa como esta que enfrenta o
mundo actual, não basta que cada um seja melhor. Os indivíduos isolados podem
perder a capacidade e a liberdade de vencer a lógica da razão instrumental e
acabam por sucumbir a um consumismo sem ética nem sentido social e ambiental.
Aos problemas sociais responde-se, não com a mera soma de bens individuais, mas
com redes comunitárias: «As exigências desta obra serão tão grandes, que as
possibilidades das iniciativas individuais e a cooperação dos particulares,
formados de maneira individualista, não serão capazes de lhes dar resposta.
Será necessária uma união de forças e uma unidade de contribuições».[154] A
conversão ecológica, que se requer para criar um dinamismo de mudança
duradoura, é também uma conversão comunitária.
220.
Esta conversão comporta várias atitudes que se conjugam para activar um cuidado
generoso e cheio de ternura. Em primeiro lugar, implica gratidão e gratuidade,
ou seja, um reconhecimento do mundo como dom recebido do amor do Pai, que
consequentemente provoca disposições gratuitas de renúncia e gestos generosos,
mesmo que ninguém os veja nem agradeça. «Que a tua mão esquerda não saiba o que
faz a tua direita (...); e teu Pai, que vê o oculto, há-de premiar-te» (Mt 6,
3-4). Implica ainda a consciência amorosa de não estar separado das outras
criaturas, mas de formar com os outros seres do universo uma estupenda comunhão
universal. O crente contempla o mundo, não como alguém que está fora dele, mas
dentro, reconhecendo os laços com que o Pai nos uniu a todos os seres. Além
disso a conversão ecológica, fazendo crescer as peculiares capacidades que Deus
deu a cada crente, leva-o a desenvolver a sua criatividade e entusiasmo para
resolver os dramas do mundo, oferecendo-se a Deus «como sacrifício vivo, santo
e agradável» (Rm12, 1). Não vê a sua superioridade como motivo de glória
pessoal nem de domínio irresponsável, mas como uma capacidade diferente que,
por sua vez, lhe impõe uma grave responsabilidade derivada da sua fé.
221.
Ajudam a enriquecer o sentido de tal conversão várias convicções da nossa fé,
desenvolvidas ao início desta encíclica, como, por exemplo, a consciência de
que cada criatura reflecte algo de Deus e tem uma mensagem para nos transmitir,
ou a certeza de que Cristo assumiu em Si mesmo este mundo material e agora,
ressuscitado, habita no íntimo de cada ser, envolvendo-o com o seu carinho e
penetrando-o com a sua luz; e ainda o reconhecimento de que Deus criou o mundo,
inscrevendo nele uma ordem e um dinamismo que o ser humano não tem o direito de
ignorar. Porventura uma pessoa, ouvindo no Evangelho Jesus dizer – a propósito
dos pássaros – que «nenhum deles passa despercebido diante de Deus» (Lc12,
6), será capaz de os maltratar ou causar-lhes dano? Convido todos os cristãos a
explicitar esta dimensão da sua conversão, permitindo que a força e a luz da
graça recebida se estendam também à relação com as outras criaturas e com o
mundo que os rodeia, e suscite aquela sublime fraternidade com a criação
inteira que viveu, de maneira tão elucidativa, São Francisco de Assis.
4.
Alegria e paz
222.
A espiritualidade cristã propõe uma forma alternativa de entender a qualidade
de vida, encorajando um estilo de vida profético e contemplativo, capaz de
gerar profunda alegria sem estar obcecado pelo consumo. É importante adoptar um
antigo ensinamento, presente em distintas tradições religiosas e também na
Bíblia. Trata-se da convicção de que «quanto menos, tanto mais». Com efeito, a
acumulação constante de possibilidades para consumir distrai o coração e impede
de dar o devido apreço a cada coisa e a cada momento. Pelo contrário, tornar-se
serenamente presente diante de cada realidade, por mais pequena que seja,
abre-nos muitas mais possibilidades de compreensão e realização pessoal. A
espiritualidade cristã propõe um crescimento na sobriedade e uma capacidade de
se alegrar com pouco. É um regresso à simplicidade que nos permite parar a
saborear as pequenas coisas, agradecer as possibilidades que a vida oferece sem
nos apegarmos ao que temos nem entristecermos por aquilo que não possuímos.
Isto exige evitar a dinâmica do domínio e da mera acumulação de prazeres.
223.
A sobriedade, vivida livre e conscientemente, é libertadora. Não se trata de
menos vida, nem vida de baixa intensidade; é precisamente o contrário. Com
efeito, as pessoas que saboreiam mais e vivem melhor cada momento são aquelas
que deixam de debicar aqui e ali, sempre à procura do que não têm, e
experimentam o que significa dar apreço a cada pessoa e a cada coisa, aprendem
a familiarizar com as coisas mais simples e sabem alegrar-se com elas. Deste
modo conseguem reduzir o número das necessidades insatisfeitas e diminuem o
cansaço e a ansiedade. É possível necessitar de pouco e viver muito, sobretudo
quando se é capaz de dar espaço a outros prazeres, encontrando satisfação nos
encontros fraternos, no serviço, na frutificação dos próprios carismas, na
música e na arte, no contacto com a natureza, na oração. A felicidade exige
saber limitar algumas necessidades que nos entorpecem, permanecendo assim
disponíveis para as múltiplas possibilidades que a vida oferece.
224.
A sobriedade e a humildade não gozaram de positiva consideração no século
passado. Mas, quando se debilita de forma generalizada o exercício dalguma
virtude na vida pessoal e social, isso acaba por provocar variados
desequilíbrios, mesmo ambientais. Por isso, não basta falar apenas da
integridade dos ecossistemas; é preciso ter a coragem de falar da integridade
da vida humana, da necessidade de incentivar e conjugar todos os grandes valores.
O desaparecimento da humildade, num ser humano excessivamente entusiasmado com
a possibilidade de dominar tudo sem limite algum, só pode acabar por prejudicar
a sociedade e o meio ambiente. Não é fácil desenvolver esta humildade sadia e
uma sobriedade feliz, se nos tornamos autónomos, se excluímos Deus da nossa
vida fazendo o nosso eu ocupar o seu lugar, se pensamos ser a nossa
subjectividade que determina o que é bem e o que é mal.
225.
Por outro lado, ninguém pode amadurecer numa sobriedade feliz, se não estiver
em paz consigo mesmo. E parte duma adequada compreensão da espiritualidade
consiste em alargar a nossa compreensão da paz, que é muito mais do que a
ausência de guerra. A paz interior das pessoas tem muito a ver com o cuidado da
ecologia e com o bem comum, porque, autenticamente vivida, reflecte-se num
equilibrado estilo de vida aliado com a capacidade de admiração que leva à
profundidade da vida. A natureza está cheia de palavras de amor; mas, como
poderemos ouvi-las no meio do ruído constante, da distracção permanente e
ansiosa, ou do culto da notoriedade? Muitas pessoas experimentam um
desequilíbrio profundo, que as impele a fazer as coisas a toda a velocidade
para se sentirem ocupadas, numa pressa constante que, por sua vez, as leva a
atropelar tudo o que têm ao seu redor. Isto tem incidência no modo como se
trata o ambiente. Uma ecologia integral exige que se dedique algum tempo para
recuperar a harmonia serena com a criação, reflectir sobre o nosso estilo de
vida e os nossos ideais, contemplar o Criador, que vive entre nós e naquilo que
nos rodeia e cuja presença «não precisa de ser criada, mas descoberta,
desvendada».[155]
226.
Falamos aqui duma atitude do coração, que vive tudo com serena atenção, que
sabe manter-se plenamente presente diante duma pessoa sem estar a pensar no que
virá depois, que se entrega a cada momento como um dom divino que se deve viver
em plenitude. Jesus ensinou-nos esta atitude, quando nos convidava a olhar os
lírios do campo e as aves do céu, ou quando, na presença dum homem inquieto,
«fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele» (Mc 10, 21). De
certeza que Ele estava plenamente presente diante de cada ser humano e de cada
criatura, mostrando-nos assim um caminho para superar a ansiedade doentia que
nos torna superficiais, agressivos e consumistas desenfreados.
227.
Uma expressão desta atitude é parar a agradecer a Deus antes e depois das
refeições. Proponho aos crentes que retomem este hábito importante e o vivam
profundamente. Este momento da bênção da mesa, embora muito breve, recorda-nos
que a nossa vida depende de Deus, fortalece o nosso sentido de gratidão pelos dons
da criação, dá graças por aqueles que com o seu trabalho fornecem estes bens, e
reforça a solidariedade com os mais necessitados.
5. Amor
civil e político
228.
O cuidado da natureza faz parte dum estilo de vida que implica capacidade de
viver juntos e de comunhão. Jesus lembrou-nos que temos Deus como nosso Pai
comum e que isto nos torna irmãos. O amor fraterno só pode ser gratuito, nunca
pode ser uma paga a outrem pelo que realizou, nem um adiantamento pelo que
esperamos venha a fazer. Por isso, é possível amar os inimigos. Esta mesma
gratuidade leva-nos a amar e aceitar o vento, o sol ou as nuvens, embora não se
submetam ao nosso controle. Assim podemos falar duma fraternidade
universal.
229.
É necessário voltar a sentir que precisamos uns dos outros, que temos uma
responsabilidade para com os outros e o mundo, que vale a pena ser bons e
honestos. Vivemos já muito tempo na degradação moral, baldando-nos à ética, à
bondade, à fé, à honestidade; chegou o momento de reconhecer que esta alegre
superficialidade de pouco nos serviu. Uma tal destruição de todo o fundamento
da vida social acaba por colocar-nos uns contra os outros na defesa dos
próprios interesses, provoca o despertar de novas formas de violência e
crueldade e impede o desenvolvimento duma verdadeira cultura do cuidado do meio
ambiente.
230.
O exemplo de Santa Teresa de Lisieux convida-nos a pôr em prática o pequeno
caminho do amor, a não perder a oportunidade duma palavra gentil, dum sorriso,
de qualquer pequeno gesto que semeie paz e amizade. Uma ecologia integral é
feita também de simples gestos quotidianos, pelos quais quebramos a lógica da
violência, da exploração, do egoísmo. Pelo contrário, o mundo do consumo
exacerbado é, simultaneamente, o mundo que maltrata a vida em todas as suas
formas.
231.
O amor, cheio de pequenos gestos de cuidado mútuo, é também civil e político,
manifestando-se em todas as acções que procuram construir um mundo melhor. O
amor à sociedade e o compromisso pelo bem comum são uma forma eminente de
caridade, que toca não só as relações entre os indivíduos, mas também «as
macrorrelações como relacionamentos sociais, económicos, políticos».[156] Por
isso, a Igreja propôs ao mundo o ideal duma «civilização do amor».[157] O
amor social é a chave para um desenvolvimento autêntico: «Para tornar a
sociedade mais humana, mais digna da pessoa, é necessário revalorizar o amor na
vida social – nos planos político, económico, cultural – fazendo dele a norma
constante e suprema do agir».[158] Neste
contexto, juntamente com a importância dos pequenos gestos diários, o amor
social impele-nos a pensar em grandes estratégias que detenham eficazmente a
degradação ambiental e incentivem uma cultura do cuidado que
permeie toda a sociedade. Quando alguém reconhece a vocação de Deus para
intervir juntamente com os outros nestas dinâmicas sociais, deve lembrar-se que
isto faz parte da sua espiritualidade, é exercício da caridade e, deste modo,
amadurece e se santifica.
232.
Nem todos são chamados a trabalhar de forma directa na política, mas no seio da
sociedade floresce uma variedade inumerável de associações que intervêm em prol
do bem comum, defendendo o meio ambiente natural e urbano. Por exemplo,
preocupam-se com um lugar público (um edifício, uma fonte, um monumento
abandonado, uma paisagem, uma praça) para proteger, sanar, melhorar ou
embelezar algo que é de todos. Ao seu redor, desenvolvem-se ou recuperam-se
vínculos, fazendo surgir um novo tecido social local. Assim, uma comunidade
liberta-se da indiferença consumista. Isto significa também cultivar uma
identidade comum, uma história que se conserva e transmite. Desta forma
cuida-se do mundo e da qualidade de vida dos mais pobres, com um sentido de
solidariedade que é, ao mesmo tempo, consciência de habitar numa casa comum que
Deus nos confiou. Estas acções comunitárias, quando exprimem um amor que se
doa, podem transformar-se em experiências espirituais intensas.
6. Os
sinais sacramentais e o descanso celebrativo
233.
O universo desenvolve-se em Deus, que o preenche completamente. E, portanto, há
um mistério a contemplar numa folha, numa vereda, no orvalho, no rosto do
pobre.[159] O
ideal não é só passar da exterioridade à interioridade para descobrir a acção
de Deus na alma, mas também chegar a encontrá-Lo em todas as coisas, como
ensinava São Boaventura: «A contemplação é tanto mais elevada quanto mais o
homem sente em si mesmo o efeito da graça divina ou quanto mais sabe reconhecer
Deus nas outras criaturas».[160]
234.
São João da Cruz ensinava que tudo o que há de bom nas coisas e experiências do
mundo «encontra-se eminentemente em Deus de maneira infinita ou, melhor, Ele é
cada uma destas grandezas que se pregam».[161] E
isto, não porque as coisas limitadas do mundo sejam realmente divinas, mas
porque o místico experimenta a ligação íntima que há entre Deus e todos os
seres vivos e, deste modo, «sente que Deus é para ele todas as coisas».[162] Quando
admira a grandeza duma montanha, não pode separar isto de Deus, e percebe que
tal admiração interior que ele vive, deve finalizar no Senhor: «As montanhas
têm cumes, são altas, imponentes, belas, graciosas, floridas e perfumadas. Como
estas montanhas, é o meu Amado para mim. Os vales solitários são tranquilos,
amenos, frescos, sombreados, ricos de doces águas. Pela variedade das suas
árvores e pelo canto suave das aves, oferecem grande divertimento e encanto aos
sentidos e, na sua solidão e silêncio, dão refrigério e repouso: como estes
vales, é o meu Amado para mim».[163]
235.
Os sacramentos constituem um modo privilegiado em que a natureza é assumida por
Deus e transformada em mediação da vida sobrenatural. Através do culto, somos
convidados a abraçar o mundo num plano diferente. A água, o azeite, o fogo e as
cores são assumidas com toda a sua força simbólica e incorporam-se no louvor. A
mão que abençoa é instrumento do amor de Deus e reflexo da proximidade de
Cristo, que veio para Se fazer nosso companheiro no caminho da vida. A água
derramada sobre o corpo da criança baptizada, é sinal de vida nova. Não fugimos
do mundo, nem negamos a natureza, quando queremos encontrar-nos com Deus.
Nota-se isto particularmente na espiritualidade do Oriente cristão. «A beleza,
que no Oriente é um dos nomes mais queridos para exprimir a harmonia divina e o
modelo da humanidade transfigurada, mostra-se em toda a parte: nas formas do
templo, nos sons, nas cores, nas luzes, nos perfumes».[164] Segundo
a experiência cristã, todas as criaturas do universo material encontram o seu
verdadeiro sentido no Verbo encarnado, porque o Filho de Deus incorporou na sua
pessoa parte do universo material, onde introduziu um gérmen de transformação
definitiva: «O cristianismo não rejeita a matéria; pelo contrário, a
corporeidade é valorizada plenamente no acto litúrgico, onde o corpo humano
mostra sua íntima natureza de templo do Espírito Santo e chega a unir-se a
Jesus Senhor, feito também Ele corpo para a salvação do mundo».[165]
236.
A criação encontra a sua maior elevação na Eucaristia. A graça, que tende a
manifestar-se de modo sensível, atinge uma expressão maravilhosa quando o
próprio Deus, feito homem, chega ao ponto de fazer-Se comer pela sua criatura.
No apogeu do mistério da Encarnação, o Senhor quer chegar ao nosso íntimo
através dum pedaço de matéria. Não o faz de cima, mas de dentro, para podermos
encontrá-Lo a Ele no nosso próprio mundo. Na Eucaristia, já está realizada a
plenitude, sendo o centro vital do universo, centro transbordante de amor e de
vida sem fim. Unido ao Filho encarnado, presente na Eucaristia, todo o cosmos
dá graças a Deus. Com efeito a Eucaristia é, por si mesma, um acto de amor
cósmico. «Sim, cósmico! Porque mesmo quando tem lugar no pequeno altar duma
igreja da aldeia, a Eucaristia é sempre celebrada, de certo modo, sobre
o altar do mundo».[166] A
Eucaristia une o céu e a terra, abraça e penetra toda a criação. O mundo, saído
das mãos de Deus, volta a Ele em feliz e plena adoração: no Pão Eucarístico, «a
criação propende para a divinização, para as santas núpcias, para a unificação
com o próprio Criador».[167] Por
isso, a Eucaristia é também fonte de luz e motivação para as nossas
preocupações pelo meio ambiente, e leva-nos a ser guardiões da criação inteira.
237.
A participação na Eucaristia é especialmente importante ao domingo. Este dia, à
semelhança do sábado judaico, é-nos oferecido como dia de cura das relações do
ser humano com Deus, consigo mesmo, com os outros e com o mundo. O domingo é o
dia da Ressurreição, o «primeiro dia» da nova criação, que tem as suas
primícias na humanidade ressuscitada do Senhor, garantia da transfiguração
final de toda a realidade criada. Além disso, este dia anuncia «o descanso
eterno do homem, em Deus».[168] Assim,
a espiritualidade cristã integra o valor do repouso e da festa. O ser humano
tende a reduzir o descanso contemplativo ao âmbito do estéril e do inútil,
esquecendo que deste modo se tira à obra realizada o mais importante: o seu
significado. Na nossa actividade, somos chamados a incluir uma dimensão
receptiva e gratuita, o que é diferente da simples inactividade. Trata-se
doutra maneira de agir, que pertence à nossa essência. Assim, a acção humana é
preservada não só do activismo vazio, mas também da ganância desenfreada e da
consciência que se isola buscando apenas o benefício pessoal. A lei do repouso
semanal impunha abster-se do trabalho no sétimo dia, «para que descansem o teu
boi e o teu jumento e tomem fôlego o filho da tua serva e o estrangeiro residente»
(Ex 23, 12). O repouso é uma ampliação do olhar, que permite voltar
a reconhecer os direitos dos outros. Assim o dia de descanso, cujo centro é a
Eucaristia, difunde a sua luz sobre a semana inteira e encoraja-nos a assumir o
cuidado da natureza e dos pobres.
7. A
Trindade e a relação entre as criaturas
238.
O Pai é a fonte última de tudo, fundamento amoroso e comunicativo de tudo o que
existe. O Filho, que O reflecte e por Quem tudo foi criado, uniu-Se a esta
terra, quando foi formado no seio de Maria. O Espírito, vínculo infinito de
amor, está intimamente presente no coração do universo, animando e suscitando
novos caminhos. O mundo foi criado pelas três Pessoas como um único princípio
divino, mas cada uma delas realiza esta obra comum segundo a própria identidade
pessoal. Por isso, «quando, admirados, contemplamos o universo na sua grandeza
e beleza, devemos louvar a inteira Trindade».[169]
239.
Para os cristãos, acreditar num Deus único que é comunhão trinitária, leva a
pensar que toda a realidade contém em si mesma uma marca propriamente
trinitária. São Boaventura chega a dizer que o ser humano, antes do pecado,
conseguia descobrir como cada criatura «testemunha que Deus é trino». O reflexo
da Trindade podia-se reconhecer na natureza, «quando esse livro não era obscuro
para o homem, nem a vista do homem se tinha turvado».[170] Este
santo franciscano ensina-nos quetoda a criatura traz em si uma estrutura
propriamente trinitária, tão real que poderia ser contemplada
espontaneamente, se o olhar do ser humano não estivesse limitado, obscurecido e
fragilizado. Indica-nos, assim, o desafio de tentar ler a realidade em chave
trinitária.
240.
As Pessoas divinas são relações subsistentes; e o mundo, criado segundo o modelo
divino, é uma trama de relações. As criaturas tendem para Deus; e é próprio de
cada ser vivo tender, por sua vez, para outra realidade, de modo que, no seio
do universo, podemos encontrar uma série inumerável de relações constantes que
secretamente se entrelaçam.[171] Isto
convida-nos não só a admirar os múltiplos vínculos que existem entre as
criaturas, mas leva-nos também a descobrir uma chave da nossa própria
realização. Na verdade, a pessoa humana cresce, amadurece e santifica-se tanto
mais, quanto mais se relaciona, sai de si mesma para viver em comunhão com
Deus, com os outros e com todas as criaturas. Assim assume na própria
existência aquele dinamismo trinitário que Deus imprimiu nela desde a sua
criação. Tudo está interligado, e isto convida-nos a maturar uma
espiritualidade da solidariedade global que brota do mistério da Trindade.
8.
A Rainha de toda a criação
241.
Maria, a mãe que cuidou de Jesus, agora cuida com carinho e preocupação materna
deste mundo ferido. Assim como chorou com o coração trespassado a morte de
Jesus, assim também agora Se compadece do sofrimento dos pobres crucificados e das
criaturas deste mundo exterminadas pelo poder humano. Ela vive, com Jesus,
completamente transfigurada, e todas as criaturas cantam a sua beleza. É a
Mulher «vestida de sol, com a lua debaixo dos pés e com uma coroa de doze
estrelas na cabeça» (Ap12, 1). Elevada ao céu, é Mãe e Rainha de toda a
criação. No seu corpo glorificado, juntamente com Cristo ressuscitado, parte da
criação alcançou toda a plenitude da sua beleza. Maria não só conserva no seu
coração toda a vida de Jesus, que «guardava» cuidadosamente (cf.Lc2,
51), mas agora compreende também o sentido de todas as coisas. Por isso,
podemos pedir-Lhe que nos ajude a contemplar este mundo com um olhar mais
sapiente.
242.
E ao lado d’Ela, na sagrada família de Nazaré, destaca-se a figura de São José.
Com o seu trabalho e presença generosa, cuidou e defendeu Maria e Jesus e
livrou-os da violência dos injustos, levando-os para o Egipto. No Evangelho,
aparece descrito como um homem justo, trabalhador, forte; mas, da sua figura,
emana também uma grande ternura, própria não de quem é fraco mas de quem é
verdadeiramente forte, atento à realidade para amar e servir humildemente. Por
isso, foi declarado protector da Igreja universal. Também Ele nos pode ensinar
a cuidar, pode motivar-nos a trabalhar com generosidade e ternura para proteger
este mundo que Deus nos confiou.
9.
Para além do sol
243.
No fim, encontrar-nos-emos face a face com a beleza infinita de Deus (cf.1
Cor13, 12) e poderemos ler, com jubilosa admiração, o mistério do universo,
o qual terá parte connosco na plenitude sem fim. Estamos a caminhar para o
sábado da eternidade, para a nova Jerusalém, para a casa comum do Céu. Diz-nos
Jesus: «Eu renovo todas as coisas» (Ap 21, 5). A vida eterna será
uma maravilha compartilhada, onde cada criatura, esplendorosamente
transformada, ocupará o seu lugar e terá algo para oferecer aos pobres
definitivamente libertados.
244.
Na expectativa da vida eterna, unimo-nos para tomar a nosso cargo esta casa que
nos foi confiada, sabendo que aquilo de bom que há nela será assumido na festa
do Céu. Juntamente com todas as criaturas, caminhamos nesta terra à procura de
Deus, porque, «se o mundo tem um princípio e foi criado, procura quem o criou,
procura quem lhe deu início, aquele que é o seu Criador».[172] Caminhemos
cantando; que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta não nos
tirem a alegria da esperança.
245.
Deus, que nos chama a uma generosa entrega e a oferecer-Lhe tudo, também nos dá
as forças e a luz de que necessitamos para prosseguir. No coração deste mundo,
permanece presente o Senhor da vida que tanto nos ama. Não nos abandona, não
nos deixa sozinhos, porque Se uniu definitivamente à nossa terra e o seu amor
sempre nos leva a encontrar novos caminhos. Que Ele seja louvado!
*
* *
246.
Depois desta longa reflexão, jubilosa e ao mesmo tempo dramática, proponho duas
orações: uma que podemos partilhar todos quantos acreditam num Deus Criador
Omnipotente, e outra pedindo que nós, cristãos, saibamos assumir os
compromissos para com a criação que o Evangelho de Jesus nos propõe.
Oração
pela nossa terra
Deus
Omnipotente,
que estais presente em todo o universo
e na mais pequenina das vossas criaturas,
Vós que envolveis com a vossa ternura
tudo o que existe,
derramai em nós a força do vosso amor
para cuidarmos da vida e da beleza.
Inundai-nos de paz,
para que vivamos como irmãos e irmãs
sem prejudicar ninguém.
Ó Deus dos pobres,
ajudai-nos a resgatar
os abandonados e esquecidos desta terra
que valem tanto aos vossos olhos.
Curai a nossa vida,
para que protejamos o mundo
e não o depredemos,
para que semeemos beleza
e não poluição nem destruição.
Tocai os corações
daqueles que buscam apenas benefícios
à custa dos pobres e da terra.
Ensinai-nos a descobrir o valor de cada coisa,
a contemplar com encanto,
a reconhecer que estamos profundamente unidos
com todas as criaturas
no nosso caminho para a vossa luz infinita.
Obrigado porque estais connosco todos os dias.
Sustentai-nos, por favor, na nossa luta
pela justiça, o amor e a paz.
que estais presente em todo o universo
e na mais pequenina das vossas criaturas,
Vós que envolveis com a vossa ternura
tudo o que existe,
derramai em nós a força do vosso amor
para cuidarmos da vida e da beleza.
Inundai-nos de paz,
para que vivamos como irmãos e irmãs
sem prejudicar ninguém.
Ó Deus dos pobres,
ajudai-nos a resgatar
os abandonados e esquecidos desta terra
que valem tanto aos vossos olhos.
Curai a nossa vida,
para que protejamos o mundo
e não o depredemos,
para que semeemos beleza
e não poluição nem destruição.
Tocai os corações
daqueles que buscam apenas benefícios
à custa dos pobres e da terra.
Ensinai-nos a descobrir o valor de cada coisa,
a contemplar com encanto,
a reconhecer que estamos profundamente unidos
com todas as criaturas
no nosso caminho para a vossa luz infinita.
Obrigado porque estais connosco todos os dias.
Sustentai-nos, por favor, na nossa luta
pela justiça, o amor e a paz.
Oração
cristã com a criação
Nós
Vos louvamos, Pai,
com todas as vossas criaturas,
que saíram da vossa mão poderosa.
São vossas e estão repletas da vossa presença
e da vossa ternura.
Louvado sejais!
com todas as vossas criaturas,
que saíram da vossa mão poderosa.
São vossas e estão repletas da vossa presença
e da vossa ternura.
Louvado sejais!
Filho
de Deus, Jesus,
por Vós foram criadas todas as coisas.
Fostes formado no seio materno de Maria,
fizestes-Vos parte desta terra,
e contemplastes este mundo
com olhos humanos.
Hoje estais vivo em cada criatura
com a vossa glória de ressuscitado.
Louvado sejais!
por Vós foram criadas todas as coisas.
Fostes formado no seio materno de Maria,
fizestes-Vos parte desta terra,
e contemplastes este mundo
com olhos humanos.
Hoje estais vivo em cada criatura
com a vossa glória de ressuscitado.
Louvado sejais!
Espírito
Santo, que, com a vossa luz,
guiais este mundo para o amor do Pai
e acompanhais o gemido da criação,
Vós viveis também nos nossos corações
a fim de nos impelir para o bem.
Louvado sejais!
guiais este mundo para o amor do Pai
e acompanhais o gemido da criação,
Vós viveis também nos nossos corações
a fim de nos impelir para o bem.
Louvado sejais!
Senhor
Deus, Uno e Trino,
comunidade estupenda de amor infinito,
ensinai-nos a contemplar-Vos
na beleza do universo,
onde tudo nos fala de Vós.
Despertai o nosso louvor e a nossa gratidão
por cada ser que criastes.
Dai-nos a graça de nos sentirmos
intimamente unidos
a tudo o que existe.
Deus de amor,
mostrai-nos o nosso lugar neste mundo
como instrumentos do vosso carinho
por todos os seres desta terra,
porque nem um deles sequer
é esquecido por Vós.
Iluminai os donos do poder e do dinheiro
para que não caiam no pecado da indiferença,
amem o bem comum, promovam os fracos,
e cuidem deste mundo que habitamos.
Os pobres e a terra estão bradando:
Senhor, tomai-nos
sob o vosso poder e a vossa luz,
para proteger cada vida,
para preparar um futuro melhor,
para que venha o vosso Reino
de justiça, paz, amor e beleza.
Louvado sejais!
Amen.
comunidade estupenda de amor infinito,
ensinai-nos a contemplar-Vos
na beleza do universo,
onde tudo nos fala de Vós.
Despertai o nosso louvor e a nossa gratidão
por cada ser que criastes.
Dai-nos a graça de nos sentirmos
intimamente unidos
a tudo o que existe.
Deus de amor,
mostrai-nos o nosso lugar neste mundo
como instrumentos do vosso carinho
por todos os seres desta terra,
porque nem um deles sequer
é esquecido por Vós.
Iluminai os donos do poder e do dinheiro
para que não caiam no pecado da indiferença,
amem o bem comum, promovam os fracos,
e cuidem deste mundo que habitamos.
Os pobres e a terra estão bradando:
Senhor, tomai-nos
sob o vosso poder e a vossa luz,
para proteger cada vida,
para preparar um futuro melhor,
para que venha o vosso Reino
de justiça, paz, amor e beleza.
Louvado sejais!
Amen.
Dado
em Roma, junto de São Pedro, no dia 24 de Maio – Solenidade de Pentecostes – de
2015, terceiro ano do meu Pontificado.
Franciscus
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